sábado, 4 de fevereiro de 2017

Eu



Eu ocupo um lugar no mundo. Agora, do nada, neste momento que não existe, porque nada surge do nada, eu me dei conta disto. Eu existo no mundo, e o mundo existe em mim porque nos percebemos. Eu, espaço de complicações e linhas interligadas, descuido desintencional depois de tantos anos. Surgi. Surgi sem avisos e inesperada. Eu mesma não acredito ainda. Não sei se eu era eu quando surgi, não sei o que restou, nem sei de onde veio o resto, esse resto que sou eu hoje. Eu, espaço reconhecido com um corpo capaz de se olhar. Então, eu me dou ainda mais conta de que não posso "me dar conta de nada"; de que a conta seria infinita. Eu ocupo muitos lugares, e muitos lugares me ocupam. Eu sou os lugares e deixo as pegadas das minhas sapatilhas por onde ando. Outros pisarão por cima; outros, que não eu. Outros de quem me distancio quando os critico. Outros a quem me ligo quando me reflito no espelho que esses outros são. Sempre o espelho, sempre eu. Não poderei fugir, e também não sei se fugiria se pudesse. A prisão de ser por vezes é confortável, porque entre as celas há sempre a liberdade de me mover; de achar que estou livre; de saber que talvez a liberdade exista e seja isso, estar unida ao que se é de forma que não se queira sair por mais que fosse possível. De saber que nunca entenderei o que vejo quando me olho ou quando me conscientizo da minha própria consciência. Talvez a consciência seja sempre inconsciente de si - o que estaria acima dela? Quem analisa o analisando está necessariamente por cima? É bom estar por cima? Não sei e nunca saberei. O lugar que ocupo, não sei onde fica. Meus olhos são cegos do mundo e só vejo o que me é permitido ver - sou eu quem me permito. Estou agarrada por algemas invisíveis de náilon aos prazeres e aos medos. Os dois são um só, como eu sou multiface do que poderia ou deveria ou gostaria de ser. Eu. Resumida em palavras e pensamentos indizíveis porque não passam pela linguagem. Eu. Perdida porque impossível de ser encontrada - só se perde quem tem local de origem. E eu já existia antes de ser. Eu e a natureza. Eu e a inteligência inconsciente que existe por trás das coisas. Eu e ela, uma só. Eu e o corpo que me carregou e que ainda me é. Eu nos lugares que ocupo, na barriga de minha mãe. Eu solidificada na sala em que me encontro. Eu, aqui e ali, ao mesmo tempo. Eu e eles. Eu, no fim. Eu resumida em duas letras. Eu numa identidade. Eu cadastrada no mundo. Eu registrada. Eu batizada. Eu sem escolhas, definida antes de ser. Mas ainda acho que sou maior que isso. E é por isso que em nada me encaixo. E é do nada que tudo isso surge.

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