segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Chiaroscuro




          Luz. Um dia a recebi como quem recebe barras de ouro e não sabe o que isso é. Um dia eu quis ser luz pura, brilhante como o sol que ofusca e para o qual se insiste em olhar. Mas sempre me guiei pelos opostos – a escuridão e seus mistérios e medos e torrentes assustadas do desconhecido sempre me atraíram mais. Um dia, alguém me deu à luz. E o sol se revolta há alguns anos e eu me vejo um pouco diferente um pouco mais magra um pouco mais estranha mais incoerente mais menos de algumas coisas mais de mim, ainda que eu não saiba o que isso quer dizer. Menos humana. Mais animal. Eternamente nessa divisa esquisita que vem do pensamento por ser humana e dele vai embora ao mínimo sinal de ira por ser animal. Um pouco mais perdida. Dissimulada. Com olhos de ressaca de quem não bebe há dois anos. O cansaço natural de ser o que se é todos os dias. Sem intervalos. O rastro perdido dos próprios pés sem direção certa. Que às vezes finge. Às vezes sabe bem para onde vai. Depois, não sabe mais. Pode acontecer tudo. Tudo pode. Inclusive nada.
          Pés com medos tremendos. Com medos absurdos ou, melhor, absurdos por si só. Um medo ambulante e meio cego que se enfia nos buracos de escuridão que encontra. Que diferença faz ser cego em meio à escuridão? Degrau por degrau. Ano após ano. Dia após dia. Manhã após manhã. Sonecas e despertadores e pedidos e urgências e gritos e choros e calma e vai passar e passa mesmo e um desespero profundo, porque há certo prazer na dor mais sincera que existe. Sentir dói um pouquinho. Ser dói um pouco. Estar dói mais. É impossível ser e estar os dois. Estar sozinho é uma mentira – somos sós, e isso é perene. Somos sol, também. Somos luz. E escuridão. E se perder e se encontrar e entender que tudo isso é uma ilusão gigante. Que não é possível se perder. Nem se encontrar. Nem se... nada. Boas falácias vendem livros, e só isso. Talvez haja um ponto no infinito que se repete até formar um círculo ou um ouroboro ou um eterno repetir-se apenas. Até entender o que se é. Até dar a volta nos mesmos pontos e se olhar e ver que círculo bonito um só ponto cria e que isso não divide nada. Que dentro do ponto e fora do ponto somos os mesmos. Que estamos sempre ali. No mesmo lugar. Dando voltas, ansiosos. Desejando sermos mais humanos do que somos e sendo ainda mais incoerentes enquanto o sol se revolta. Luz na escuridão.
          Um dia alguém me deu à luz. Talvez não possa olhá-la porque, como todos os pontos do mundo, estou sozinha. E não me vejo. E o espelho não me reflete. Nem eu reflito sobre mim. Minha própria luz me cega como o sol que... então, não insisto. Aceito que a tenho. Sigo. Caminho comigo como uma boa amiga que se entende e às vezes tem raiva de si e tudo bem: essa é a vida. Eu e minha solidão. Eu e todas as outras solidões dos outros que fingem que sabem para onde os pés irão. Eu não finjo. Eu não sei. Tudo que sei é que é meu aniversário e estou sozinha. E sempre estarei. Eu e meu infinito inteiro. Perdidos no espaço. Revoltados numa galáxia de perigos iminentes. Viver é um risco absurdo. Um risco de giz, quase um ponto no quadro branco iluminado pela tubular do teto que insiste em me dizer que as coisas mais óbvias estão nos lugares mais vulgares. E que eu estou aqui, exatamente onde deveria estar. Iluminada pelas minhas próprias trevas. Despida. Incalculável. Cega. Sempre. Sempre. E sempre mais. Tenho um vácuo, e ele é só meu. Fui presenteada com o nada. Assim, fico mais leve. Mais eu. Ano após ano. Postergando a eternidade.

domingo, 3 de setembro de 2017

Não saberes

Tudo dói um pouco à
meia-noite de um sábado
a falta de pressa
a calmaria
a brisa imaculada que canta e
regenera os pecados todos
e as culpas sem sentido
e também as com sentido
o vento no rosto que a
tudo perdoa
sem exceções
o medo, a angústia
a dúvida de pra onde vamos após
a vida e após
a morte
qual a duração
da morte
do intervalo de tempo entre a
vida e a pós-vida
se a duração existe
o que é durar e
o quanto isso vale
pra onde vão os outros que
não vejo
não toco
não beijo
pra onde vão os que ainda
habitam a terra e sumiram da
alma
se existe alma
se existo
se habito um lugar que posso
chamar de meu
se sou minha
dos outros
de ninguém
sem dono sem coleira sem
memórias
tudo apagado
reinventado fingido
uma
duas
mil vezes mais
aonde estou quando me vejo e
não me reconheço no mesmo
corpo
os braços dormentes
a alma anestesiada
nada doerá
nada parará nisto que
nem mesmo é meu
que nem se sabe
que tem pernas e barriga e
dedos sem consciência de si
conjunto inorgânico
aleatório
estranho e com uma lógica
própria que se desconhece
plena em sua ignorância
as lágrimas que caem e
se ausentam e se misturam ao
que as fez e não se
sabe onde nasceram
de onde vieram
de onde surge essa
tristeza infinita
parasita de um espaço com
nome dado pelos outros
sempre os outros
o inferno que não se
escolhe
e com o qual a vida é
tecida por completo
e ainda assim
tudo dói um pouco
apesar de todas as promessas
sempre
em todo momento
à meia-noite
às onze
ao meio-dia
às terças
aos domingos
nada importa, afinal,
a cronologia inexiste diante
do tempo interno dos sentidos
escondidos de uma sensação
inteira
desconhecida de si
estranha como um homem que
se olha e não
se vê
tudo dói um pouco
e se somente a dor me sobrar
ainda assim
estarei viva
e seremos uma só
juntas
renascidas
encontrando outras no
caminho e finalmente percebendo
que nenhuma dor
está sozinha.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Mistério

posso ser eu
a reencarnação de
alguém que não morreu?

morremos um pouco a cada dia
e já dei de mim um pouco a quem
nasceu.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Eu



Eu ocupo um lugar no mundo. Agora, do nada, neste momento que não existe, porque nada surge do nada, eu me dei conta disto. Eu existo no mundo, e o mundo existe em mim porque nos percebemos. Eu, espaço de complicações e linhas interligadas, descuido desintencional depois de tantos anos. Surgi. Surgi sem avisos e inesperada. Eu mesma não acredito ainda. Não sei se eu era eu quando surgi, não sei o que restou, nem sei de onde veio o resto, esse resto que sou eu hoje. Eu, espaço reconhecido com um corpo capaz de se olhar. Então, eu me dou ainda mais conta de que não posso "me dar conta de nada"; de que a conta seria infinita. Eu ocupo muitos lugares, e muitos lugares me ocupam. Eu sou os lugares e deixo as pegadas das minhas sapatilhas por onde ando. Outros pisarão por cima; outros, que não eu. Outros de quem me distancio quando os critico. Outros a quem me ligo quando me reflito no espelho que esses outros são. Sempre o espelho, sempre eu. Não poderei fugir, e também não sei se fugiria se pudesse. A prisão de ser por vezes é confortável, porque entre as celas há sempre a liberdade de me mover; de achar que estou livre; de saber que talvez a liberdade exista e seja isso, estar unida ao que se é de forma que não se queira sair por mais que fosse possível. De saber que nunca entenderei o que vejo quando me olho ou quando me conscientizo da minha própria consciência. Talvez a consciência seja sempre inconsciente de si - o que estaria acima dela? Quem analisa o analisando está necessariamente por cima? É bom estar por cima? Não sei e nunca saberei. O lugar que ocupo, não sei onde fica. Meus olhos são cegos do mundo e só vejo o que me é permitido ver - sou eu quem me permito. Estou agarrada por algemas invisíveis de náilon aos prazeres e aos medos. Os dois são um só, como eu sou multiface do que poderia ou deveria ou gostaria de ser. Eu. Resumida em palavras e pensamentos indizíveis porque não passam pela linguagem. Eu. Perdida porque impossível de ser encontrada - só se perde quem tem local de origem. E eu já existia antes de ser. Eu e a natureza. Eu e a inteligência inconsciente que existe por trás das coisas. Eu e ela, uma só. Eu e o corpo que me carregou e que ainda me é. Eu nos lugares que ocupo, na barriga de minha mãe. Eu solidificada na sala em que me encontro. Eu, aqui e ali, ao mesmo tempo. Eu e eles. Eu, no fim. Eu resumida em duas letras. Eu numa identidade. Eu cadastrada no mundo. Eu registrada. Eu batizada. Eu sem escolhas, definida antes de ser. Mas ainda acho que sou maior que isso. E é por isso que em nada me encaixo. E é do nada que tudo isso surge.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Medo



quando eu ouço isso ou
aquilo,
eu já sei de tudo, mas
saber tudo não me ajuda
em nada

me ajuda saber que não estou
sozinha no mundo
ainda que esteja

que ainda existe um lugar mais
profundo que o fundo do
poço do poço mais
fundo que eu já
alcancei

me ajuda saber que amanhã
poderei acordar e continuar
dormindo
se eu quiser

me ajuda
me dar ajuda sem que eu
peça ou implore

pegar na minha mão sem
que eu a ofereça

me ajuda que apareça a
luz no fim do túnel
que já percorri e
ainda percorro todas as
manhãs

se amanhã eu puder ser
como sou enquanto durmo
talvez eu esteja salva

se eu não puder
me resta ouvir
isso ou aquilo que se diz
quando nada mais
ajuda
"tudo vai ficar bem"

quando respirar dói um pouco
e a perna pesa mais do que o
peso do mundo
nas costas
nas mesmas costas
que um dia eu virei
quando ouvi isso ou aquilo
e ainda mais pesou
sobre mim
a minha própria alma

"se acalma
tudo vai ficar bem"
virou o meu hino de redenção

estarei calma quando as
ruas já não estiverem tão desertas
quando o coração não aperta se
um passo estranho é ouvido em rua
escura

quando não se atura ter que
olhar bem o caminho

estarei calma
salva
regenerada
quando puder ser
a coisa mais básica que sou

mulher.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Essência

sou toda de dores e
pudores
mas também de amores sou
feita
e de rimas perfeitas em
breguice
quem foi que disse que
preciso ser coerente?
não me engano e sou
crente quando digo:
não sei ser clara de
propósitos
eu sou sozinha e
adormecida
nada me dói
nada me revive
só quero estar sozinha no
meu cubículo
lido melhor comigo e com
meus dilemas do que
com os problemas que não
me habitam
e no fim talvez eu seja
um cão
um viralata
consumido
pelos dias em que
não sabe o que se é
direito
se vítima ou suspeito
do seu próprio crime:
nasci
sem explicações
e gosto de estar
na minha

sou narcísica
marciana
esquisita
sou parasita deste corpo
que
não
me
pertence
e dói um pouco
acordar todos os
dias
e ver que existo em
mim
que viver é mesmo uma
dor sem fim
e que adormecer
não me trocará os olhos
nem os ouvidos
e que os dias vividos
num outro dia se
perderão
na história da
memória
nas rimas sem
compromisso

sou rebuliço
de agonias desde a
entranha
e permaneço dormindo
só acordo quando caio
ao chão
frio
gélido
pesado com o peso das
manhãs que sempre
sempre
se repetem
como num parto dourado
de arrependimentos.