domingo, 4 de janeiro de 2015

Restos

Morro a cada minuto
Junto ao mundo inteiro e 
Sua solidão precária
Ouço o barulho da rua que não
Me diz nada, nada
Numa noite tão sozinha e escura
Como todas as noites de um ano
Sei que um dia morrerei de vez
E poucos restará do que já
Resta de mim
Sou sempre um resto esfarelado
No sofá como um pão coitado
Mal comido em frente à TV da sala
Quando a cabeça não faz nada e
Canta a música do programa do sábado
Ou ri das pegadinhas vulgares de
Um dia todo inútil
Morrerei junto aos homens que se julgam
Vivos ao ponto de matarem outros
Morrerei junto às mulheres mortas pelos homens
E pelas próprias mulheres que
Se matam por um só coração e um só
Perdão ou elogio depois do almoço
Morrerei no alvoroço das lutas diárias
Das correrias, das multidões, dos medos que
Me fazem pagar uma analista
Morrerei na dor da solidão eterna
Perene como uma barata que parece não
Morrer nunca
Mas só matar os outros
De medo
De nojo
Do pudor de se igualar ao esgoto de onde
Todos vieram
E para onde todos vão
No fim, seremos um só
As baratas e eu
A TV e eu
A noite e eu
E eu
E eu
E eu
Morrerei sozinha bem como nasci
Morrerei no ventre de minha mãe
Num choro estralado no meio do dia
Num desespero profundo de surgir
Prum mundo estranho
Morrerei sei lá quando
Não tenho a menor pressa
Mas espero que não me despeça de nada e
Não saiba do fim, pois morreria antes mesmo
E roeria as unhas antes dos bichos
E tudo seria ainda pior
Enfim, o caminho da morte é a morte
E a vida não existe, nem quando
É celebrada
Celebramos sempre a despedida
Seus meios, seus enlaces
E sabemos, no fundo, que tudo é
Sempre um pouco
Em vão
E vazio como uma cova
Onde o corpo se encaixa
Desajeitado e sem saber por quê.

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