sexta-feira, 6 de junho de 2014

Tantas coisas que não cabem num título

eu li o poema
sem pretensões de escrever um
muito menos O poema
(se bem que isso soa falso quando menciono)
mas nem tudo que não reluz é bijoux
nem todo verso é poema
nem todo choro é tristeza
nem todo clichê é irrelevante
nem todo blábláblá é traduzível
e ando cansada de exceções
o que digo é que eu, toda, sou uma exceção
e ando cansada de mim,
mas não tem jeito
sou eu do início ao fim,
e gosto um bocado, na verdade,
mas só escrevo quando me canso
e preciso me compartilhar com o Outro
(o Outro de mim que eu não sei qual é,
mas que existe)

o fato é que este poema tem um ritmo
completamente diverso do que imaginei
sim, porque eu o imaginei
pelo menos seu começo,
e, como um filho que eu não tenho
(mas que também imagino),
segue seu curso próprio,
mesmo que saia de mim

tudo começou com a leitura de um outro poema
sem pretensões de qualquer escrita
então, pensei "o que é identificar-se?
por que gostei tanto deste poema?
o que me liga a esse outro - tão distante, que já morto?"
e estou até agora sem respostas,
mas com um poema que fala sei lá do quê,
escrito por mim,
sei lá como,
porque eu de fato não sei de nada
e me enganei ao procurar respostas na poesia
quando a poesia é uma interrogação eterna,
que só me dá mais perguntas
e a sensação de que ainda sei me perguntar
e a delícia que isso é
e algum outro que se dane com as respostas
e com as perguntas que elas vão trazer
nesse labirinto sem fim que é
qualquer coisa que eu tente definir para acabar com isso
coerentemente
- se não tem jeito,
encerro assim,
mesmo

(mas ainda acrescento que cada palavra arrependida,
cada apago que eu dei,
foi a morte de uma outra poesia.
que pena,
talvez seja melhor assim
talvez não
e talvez comparações sejam desnecessárias,
só necessárias pra que sua inutilidade seja compreendida
e pronto
talvez seja esse o objetivo do poema
terminar sem avisar-se
quando menos se.

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