quarta-feira, 8 de maio de 2013

Contradições do ódio próprio à espécie

Eu gosto do meu relógio só por não ser eu
Mas, ao gostar, imprimo meu afeto sobre ele
E preciso odiá-lo, então, porque me odeio;

Eu gosto do meu sapato só por não ser eu
Mas ele tem o cheiro do meu pé
E preciso odiá-lo, então, porque me odeio;

Eu gosto do band-aid do dedo da minha amiga
Mas fui eu quem o coloquei, e ele tem o registro
Das linhas da minha mão
E preciso odiá-lo, então, porque me odeio;

Eu gosto da porta da casa em que nunca fui, do
Meu amor que nem conheço. Mas eu o criei,
E preciso odiá-lo, então, porque me odeio;

Eu gosto da boca da menina que beijou o
Menino que antes beijei. Mas a boca dele já conhece
A minha, e a boca dele não é a mesma que
Era antes da minha, nem a boca da menina é a
Mesma que era antes da boca do menino
E preciso odiá-los, então, porque me odeio;

Eu gosto do boné que meu parente comprou hoje
E eu não os vi, mas este toca aquele com as mãos que já
Tocaram as minhas, e o parente que compra o boné
Tem os mesmos genes que eu
E preciso odiá-lo, então, porque me odeio.

Odeio não só o meu todo, mas todas as minhas partes;
Todas as coisas tocadas pela minha mão;
Todos os objetos mirados pelo meu olhar;
Eu me odeio antes de existir;
Odeio o mundo que viera antes de mim, por me gerar
E criar parte do que sou;
Odeio o mundo em que existo, direta e indiretamente
E odeio os mundos em que não existo, só por criá-los ao
Pensar em não existir neles.
Eu fujo de tudo,
E sempre me encontro, num eterno retorno,
E me obrigo a me amar,
Só por me odiar,
E ainda faço tudo verdadeiramente
Ao mesmo tempo
Em completude.

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