segunda-feira, 22 de abril de 2013

Elogio ao conformismo da essência

Agora,
O sopro da poesia foi embora
E eu já não sei mais o que escrevo
Ou o que devo escrever
Ou o que posso escrever
Ou de que forma posso construir o belo
Ou o feio, o horroroso
Não sei me usar como martelo para
Esculpir mais nada
Tive muitas ideias, muitos lampejos
Mas deixei todos passarem
Agora eu já não vejo nem buracos
Do que vi
Epifanias tristes, taciturnas
Me vieram
Sem nada novo, mas revelando
Onde nasci
Quis falar sobre o mistério
Sobre a essência das coisas e objetos
Dos humanos, dos sobre-humanos
Quis fazer jorro antiético de mim
Mas não rolou
Não vai rolar
Minha confissão é sempre fútil
E aquém do enigma do ar:
Eu quero mesmo é te jogar
As minhas raivas, as minhas celas
E ser livre sem ter fim
Eu já li tantos poemas
E já vi tantos mais filmes
E já ouvi tantas mais músicas
Mas o meu crime continua a insistir:
P o r f a v o r n ã o s e j a b o b a
Não guarde mágoas, tudo irá acabar
Só o eterno permanecerá, por ser
Ausente de início
Mas o eterno não pode permanecer
Isso seria ficar, conservar-se sempre igual
Ao que já foi
E o eterno está sempre a mudar
E a escolher formas diversas
Horas diversas
Gentes diversas
Para alcançar todas as combinações da
Probabilidade da matemática do
Cálculo das placas de carro e
Adivinhações de senhas
O eterno muda para não morrer
E eu, enfim, penso nos fins
No que será de mim ao renascer
No fato de que tuas mãos serão pó
De que teu cabelo será pó
De que teu pó será pó
E não vai mais se impregnar em teu nariz
Pois teu nariz será pó
E me entristeço
Até lembrar que alma não tem
Endereço, reside sempre em muitos
Corpos, ondula sobre o mar
Imita a vida que não segue
Ordem nenhuma, nem justiças
Nem juízos, nem preferências
Não por bondade ou desejo de paz geral
Mas apenas porque ao Norte
Porque ao bendito Norte
Não existe general.

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