domingo, 4 de novembro de 2012

Quando me deito na cama

Quando me deito na cama
De bruços
Me afogo em soluços
Em lágrimas duras
Cheias de amarguras
Que seguem,
Ceguinhas,
O mesmo impulso

Quando me deito na cama
É que me dou conta
Do quanto estou longe
De ser Dalai Lama:
Não existe monge
Que ame o drama

Quando me deito na cama
É impressionante:
O onírico revela
O mal dissonante
Então, eu sou ela
E ela sou eu
Mesmo por instante
Me encontro no breu

Quando me deito na cama
Vou ao paraíso
Esqueço os avisos
De quem só reclama
E esqueço as horas
Que passam e, junto,
Levam meu juízo

Quando me deito na cama
Eu tudo revivo
Inclusive o período
Em que estava morta:
Minha mente transporta
O intuitivo
Que deixo escapar
De olhos abertos

Mas, nisso, o que é certo
É, também, incrível:
Não há derradeiro
Igual ao primeiro
E a inocência
Ao de si tomar ciência
Vira só reminiscência
E perde a resiliência

Quando me deito na cama
Percebo
Que o que me chama
Parece o que bebo
É a necessidade
De me encontrar
Mesmo que pra isso
Eu tanto precise
As janelas fechar

Quando me deito na cama
Percebo
Que sou bem maior
Que todo esse acervo
De mágoas, lástima
E pena

Que sou bem maior
Mas ainda pequena
Quase como um ovo
Comido sem gema:
Eu sou mesmo tenra
E esses ponteiros
Prosseguem a andar

Quem sabe eu aprendo
Que a vida flui
Sem se apressar
E, nela, se inclui
A sorte, a fortuna
Mas,
Antes,
O azar.