sábado, 16 de junho de 2012

O último dia do primeiro osso


        O primeiro osso do indicador, perto da roída unha, destruiria o homem de inúmeros precoces cabelos brancos, trinta anos, dois filhos e nenhum siso. O primeiro osso do indicador jorraria seiva, a existência, o que sai e entra da seringa dia todo em crises diabo-éticas; quebraria a linhagem, cortaria a linha pela metade, no auge, derramaria pranto, imprimiria letras jornalisticamente adultas, sujaria piso encerado, o caro sofá inglês dividido em anos: da mão que sairia a morte, entraria, também, a vida: a vida do viver depois, dos pontos acumulados dentro dos pontos: a vida do ser mais que "ser": do eternar-se: do sem fim.
        O gadanho carcomido, reflexo da ansiedade da criatura inexata e completamente perdida, turista de si, ficaria escarlate. O primeiro osso do indicador seria divino, querubim quase, enfeitado com anéis de louro, mítico, e teria uma só missão: impedir o dono de suceder a vida, engatilhá-lo ao céu; fotografaria, pela derradeira vez, a paralisação dos músculos todos, da alma, a finitude de seu anseio; fotografaria o seio, também, do homem-mulher-morto; os olhos esbugalhados que já nada enxergam, que nem mesmo choram; os ouvidos estourados que já não escutam, não acomodam fone; a boca que já não come, não chupa; a bochecha que já não recebe beijo, nem aperto; o nariz que não respira, não espirra, não cheira; a sobrancelha que não conhece pinça; os cílios que não se melam de preto, não engrandecem; o corpo que não é tocado, apertado, melecado, muito menos desejado; o pé que não anda, não chuta; o homem que não vive há muito tempo.
        O primeiro osso indicaria que a hipótese vira fato, que o escondido vira explícito, que os segredos são espalhados: as cartas são devidamente entregues, as roupas são doadas, os móveis são vendidos, as mágoas são distribuídas, o perdão é concedido, o homem vira santo. Depois, cabe aos bichos, à terra de onde se veio, onde se plantou, se colheu, onde se fez raiz; depois, cabe à natureza, que o espírito já não é mais seu, mas de ninguém: vaga pela Terra maiúscula, onde os menores não têm vez, até depositar numa outra vida, noutro corpo, noutro ser qualquer que, após tanta tentativa, desista idem e unicamente pelo apreço rompidamente desajustado: o seu próprio.