sábado, 4 de fevereiro de 2012

O espelho.


Era cedo, se o referencial fosse a noite. Era tarde, se fosse a madrugada. Era atemporal, se fosse o amor. Sempre acordava com a cabeça meio "zonza", uma das mãos dormente, o cabelo bagunçado e aparentemente mais curto - mas não. Não. Tudo estava do mesmo tamanho: da altura à esperança. Nem maior, nem menor. Talvez houvesse engordado, sabia o quanto aqueles chocolates a levariam de volta ao passado, mas estava do mesmo tamanho. Sozinha, naquele momento pequeno, que, na pele, parecia durar a eternidade, levantou com passos lentos e a consciência furada como uma peneira, por onde escorriam todas as suas culpas. Tocando cada parede, quase esquecendo o mapa da própria casa, dirigiu-se à cozinha. Na pia, uma pilha de pratos, da marca Rayovac. A água saía da torneira com o propósito de assustá-la, no silêncio, fazendo com que se sentisse numa película de terror - mas não. Não. Não era terror. Às vezes, comédia, suspense, drama, mas terror, não. Doía, doía bem muito lá dentro, assombrava, assustava, gritava, gemia, pulsava em tons de preto, mas por fora era riso. Era alegria, amor, perdão, compaixão, condolência e outras palavras desconexas. Era Calcutá, era vintage, era bonito. Ao lado da pilha, chocolate derretido. Enfiou os dedos no pote e lambeu. Lambeu o doce e os dedos, até sentir o gosto de qualquer coisa que corresse pelo sangue. Que dor! Uns 5 passos a mais e deu de cara com o espelho. De cara, de peito, de umbigo. Que dor! O cenário mudou. Na cozinha, aparecia um quadro, o silêncio se transformava em risadas, e ela ganhava dez quilos. Dez absurdos e pesados quilos. Dez doloridos e inacreditáveis quilos. Seu rosto rejuvenesceu, o cabelo cresceu, se encheu de volume, e os olhos pegaram a inocência de volta. Que dor! Os sorrisos, maldosos, doídos e com ponta de faca, a faziam chorar. Chorou, chorou, chorou tudo que não chorara antes. A cozinha, então, voltava... o peso normalizava e as lágrimas secavam. Percebeu, assim, que o mundo, com dez quilos a mais, parecia horrível, mas só com dez a menos pôde perceber: as pessoas não eram tão ruins. Ela é que queria ser boa demais.