quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ricardo e o nó.


Às 7h da manhã, Ricardo acordava rindo e translúcido de um sonho. Acordar tão cedo - em dia de chuva, principalmente - era coisa rara, difícil como tomar banho frio no próprio frio. Abrir os olhos naturalmente, então, sem que ninguém lhe puxe as pernas ou que o despertador berre nos ouvidos, era mais difícil ainda. Ricardo só acordava cedo, assim, quando algo o incomodava. E incomodava. O quê? Não se sabe. Só sentia, no estômago, o tal nó que confundia, diversas vezes, com gastrite, mas nem mesmo houvera passado fome, nem tomara limão demais. Aquele homem moreno, maior que sua cama, grande para os lados e comprimentos, com os olhos cansados - desta vez, por tanto acordar-dormir-e-acordar -, decidiu curar sua gastrite, e é aí que a história começa: Ricardo e o nó. Foi à cozinha, pegou um Magnésia Bisurada e mastigou até esquecer o gosto bom das coisas. A dor permanecia. Em passos largos e afoitos, ia em direção ao quarto. Abriu o guarda-roupa, mas parou e pensou melhor: não iria demorar, portanto, não seria preciso sujar mais uma roupa - pegaria a que havia usado no dia anterior e que, por coincidência, sorte ou desorganização, estava jogada no espelho da cama. Vestiu sua blusa colorida, cinto marrom e calça-cor-de-burro-quando-foge. Mexendo nos bolsos, achou, sem querer, a chave de casa - o que resultou em um "Graças a Deus!" Abriu a porta, retirou o pega-ladrão, verificou a maçaneta 7 vezes, voltou para confirmar se as luzes estavam acesas ou apagadas e, enfim, foi. Descia as escadas, enquanto imaginava como seria conversar com o homem de branco. Havia a vantagem: era logo em frente ao seu apartamento. Atravessando a rua, já estaria lá. O primeiro cheiro seria o éter. O segundo, o das fichas já usadas tantas vezes. Rezava para que o terceiro fosse o cheiro do ar livre, mas poderia ser o da maca. Com medo do futuro breve, apesar de imaginar um lindo e fácil futuro distante, correu de volta à sua casa e saiu do hospital. Subiu as escadas, abriu a porta, verificou a maçaneta, acendeu e apagou as luzes 7 vezes e jogou-se na cama. Subitamente, como se percebesse o quanto a vida parecia-se com um circo, como se deus o achasse especial e resolvesse lhe dar seus poderes, os olhos de Ricardo viraram para dentro, entravam em seu corpo e examinavam cada região, meticulosamente. O nariz era grande e vermelho - por dentro, também. A boca era cheia de dentes e há muito não sentia outra boca. O pescoço era mais sensual quando olhado por fora do corpo - assim como a barriga, que parecia uma briga entre tripas de boi. O pênis era proporcional. As pernas eram grandes, grossas e pareciam possuir todo o sangue do corpo. Os pés, muito bonitos, mas enormes. Com os olhos para dentro, tateou a cortina cor rouge e a fechou. No final de tudo, quase esquecia o estômago. Quando o notou, descobriu: não era gastrite; era o nó da gravata. Ricardo lembrou-se de tê-la engolido, há alguns anos, e concluía, naquela vida ausente de sentido: vida de palhaço tem dessas coisas.

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