sábado, 15 de outubro de 2011

A de amor, B de briga.


- Você me ama?
- Sim. Você me ama?
- Que horas são?
- Não me ama. Se amasse, não pularia minhas perguntas propositalmente.
- Dramas só são bons em filmes.
- Deus assiste ao nosso filme.
- deus não existe.
- Eu sonho tanto.
- Não sonha. Se sonhasse, não diria.
- Seu único sonho é que chegue o domingo, para que possa dormir até tarde. Você não tem ambição, é fraco e estagnado. Eu tenho nojo de você.
- Então você ama o que te dá nojo. Ama as baratas?
- Você é idiota. Acho que não sinto mais nada. Eu sei que sinto, algo em mim sente-lá-dentro, mas não sai pra fora.
- Além de tudo, é pleonástica. Você está inspirada hoje, cheia de ideias.
- Não estou. Inspiração não é só uma ideia nova, mas uma ideia junto a impressão de que se está feliz, apenas por pensar, mesmo que tudo esteja errado. Eu ficaria feliz se você se abrisse para mim.
- Eu me abriria, se você fosse clara no que diz. A única coisa clara é tua pele, pois, quanto ao resto, não entendo nada. E você faz de propósito, para que eu não entenda e queira você, mas não consegue. Na verdade, eu só te quero porque você tem essas técnicas bobas, achando que é mais esperta que eu. Talvez seja, mas nunca irá saber. Eu só amo o que você não sabe. Não te amo quando você para o carro antes da faixa de pedestres, e sim quando é multada. Eu te amo quando errada, porque és errada, e eu só posso amar o que você é.
- Você é que não diz nada com nada.
- Eu te odeio.
- Você me ama.
- Amo.
- Então não me odeia. Ódio é grande pra caber no amor: ou um, ou outro.
- Meu amor é tão grande que cabe tudo, inclusive vontade de te matar.
- Por que não mata?
- Porque me arrependeria.
- Você só pensa em si.
- Penso em você, também, mas é verdade que penso mais em mim. Sou eu quem penso, o que você queria? Minha cabeça é metalinguística. Eu penso em mim, não cabe tanto dos outros, mas, mesmo assim, você entra aqui: sinta-se especial.
- Eu vi, em Acossado, que o sono separa as pessoas, mas eu sonho com você todas as noites.
- E não me conta, diz que teve pesadelos.
- E é verdade.
- Então, separa mesmo.
- Não quero mais te ver.
- Mas verá. Mesmo que eu morra, você fechará os olhos e me verá. Não tem como, meu bem.
- Então eu morro junto e não te vejo mais.
- Morreria sem mim?
- Não. Eu te mataria antes.
- Mataria para morrer depois. Você é covarde.
- Você só fala de si.
- Nós brigamos, eu falo de você, você fala de mim, mas não adianta nada. Você gosta do jeito que está, não é para adiantar mesmo. Gosta que briguemos, que xinguemos. Amor nem sempre é amável.
- E por que tenho que participar do "nem sempre"?
- Ai, nossas brigas dariam um texto.
- Não seja idiota. Um texto é que daria a gente.