sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ana nasce para o mundo.

Sofria. Ana sofria todos os dias. Não quando subia tortuosamente as escadas, ou nas horas em que trabalhava. Ana sofria devagarinho. Devagarinho lavava os pratos, e devagarinho chorava. Quem sabe em 99 chorasse pelo joelho ralado de 98. Abria as cortinas, via o mundo: real. Quando caía na realidade - a com fatos, carne, osso e cores -, ficava atônita. Como podia ser real, se nem ela mesma o era? Achava até que passariam os créditos, após sua morte. Créditos para quem? "Direção de deus"? E se fosse atéia, não teria direito às letras de forma num back preto? Mas ser humano tem liberdade para achar o que quiser. O problema é que ela não queria. Ela até queria acreditar, mas não sabia. Até por não existir esse "querer acreditar". Quem crê, crê: ponto. Em relação ao Reginaldo, acontecia o oposto. Tantas vezes ele mentia, tantas ela acreditava. Arranjava hipóteses para justificar suas demoras, sua grosseria, seu mau humor matinal, tardal e noital. Sua falta de educação. Seu pedido de desculpa que nem existia. Ela queria amar, só isso. Sofria devagar cada vez que ouvia a porta abrir: não era ele. Lia, assistia televisão, conversava com as vizinhas. Enquanto o mundo corria, ela se engarrafava. Reginaldo voltava: coração de Ana batia rápido. Se tinha uma coisa rápida, naquela mulher, era isso. Isso - que ela não chamava por "isso", mas pelo nome ao qual se resumia o motivo de bater - pulsava forte, enquanto o barulho da chave abrindo a porta. Agora, sim, era ele. Reginaldo trazia, nas mãos, um mini-planeta-Terra. Pôs na mesa. "Este planeta é mais verdadeiro que o nosso", passou na cabeça dela. De repente, um sentimento do mundo todo entrava em Ana. Não era carnaval, natal, aniversário. Era um dia. E entrava, sentia, crescia, tudo resolveu nascer - ela também. Pensou em beijar o homem: não. Foi embora. Afinal, são necessárias duas pessoas para beijar. Ela já não era ela: tornou-se ele - a vida dele, as roupas passadas dele, as calças bem dobradas dele, os sapatos limpos dele. Ana, enfim, nascia, depois de imensos anos dentro de alguém, olhou para fora: o mundo era mesmo real. E girava devagar.

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