domingo, 25 de setembro de 2011

Nada a ver.


- Está escuro porque estás de olhos fechados. Abre.
- Me assustam estas transparências afiadas. O que é isso?
- São unhas femininas. Essas não tem cor, pois sua dona é, também, dona de si, e não se importa com essas pinturas e cores que as outras mulheres metem-lhe no rosto ou em qualquer outra parte. Veja. Aquela mais alta tem os dedos inclinados para uma direção, devido aos sapatos de bico fino que usa todos os dias. Aquela outra não tem. Qual delas te parece mais feliz?
- Eu não sei, não fui treinado para isso.
- Esse impulso que te leva a escolher determinadas pessoas e cenas, não sei de onde vem. O que te parece mais bonito: o homem que roça o pé noutro pé inclinado, ou no perfeito?
- Me parece mais bonito aquele que não tem pés para roçar.
- Uma vida solitária?
- Vejo beleza nisso, mas nem tudo que se vive é belo.
- Tudo o que se vive é belo, sim. Há beleza na árvore que balança agora, na cidade ao lado, e eu nem mesmo a olho. Mas há vida na árvore. Há tanta vida na árvore, e há tanta beleza na vida, que eu me conformo em não ver.
- O que é aquilo?
- Ah, é um homem que deita, mas está longe de nós. Não há perigo.
- Por que somos tão pequenos?
- Eles é que são grandes demais. Os homens, com seus cabelos, quadris e passos largos, nos esmagam nos fins-de-semana, quando o filme se tornou entediante e ninguém atende o telefone. Quando são ignorados, eles matam. Assim são os homens, não esqueça. Ou dá a eles o que querem, ou não se poderá querer mais nada. E são tão egoístas... como são burros os homens.
- E nós, como somos cegos...
- Está escuro porque estás de olhos fechados. Abre.

Um comentário:

  1. Abrir os olhos. Tão difícil! Por mais que tente, não consigo abrir...
    Adorei o texto.
    Bjs

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