sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O quadrado.

Ocorre agora a lembrança daqueles quadrados malditos: os gabaritos. Lembrei das provas que já fiz e da sensação que tinha ao chegar no último quadrado a ser pintado. Eu entrava em pânico. Minha mão na caneta, a tinta pintando o tal do quadrado, eu nem acreditava. O prédio explodia, a sala pegava fogo, as pessoas corriam, eu lembrava do que havia jantado, pensava em dormir quando chegasse - e eu nem sabia se iria chegar -, meu ouvido todo girava em tropofonia, "uou uou uou" sem parar dentro da gente, eu tremia, minha mão tremia, a caneta tremia. Tremer em todos os tempos. Eu estava no jardim. Aquele jardim tão meu, quase sem grama. De repente era eu grande e pequena, e eu ainda me perguntava se havia crescido, diminuído. "Vida é confusa" falava uma voz feminina no meu ouvido esquerdo. Eu me olhei no jardim. Eu, assim, usando jeans nos anos 2000, olhava pra mim em mil novecentos e alguma coisa. 2000 era todo azul brilhante, um céu cheio de estrela, três zeros limpos e gordinhos, e tão meus. Eu lembrava do meu perfil, da pressão do meu cotovelo encostado na perna, de quando o tiro e está todo vermelho, do cabelo ainda úmido, veio a música de um programa nos dois ouvidos - nos dois de uma vez -, depois eu queria pipoca, mas não podia. Então voltei pra mil e novecentos. Eu, grande, parada, com jeans, olhando preu pequena. Doía. Se não avisassem, eu não saberia quem era. E aquela mesma estava presente nos meus dois mil, como dezesseis existe em dezessete. Sem música de fundo, sem soundtrack, era eu e eu, só nós duas. Só nós duas mil. Saía de mim uma pra cada segundo, acenavam. Umas sorriam, outras choravam, como quem tem um espelho na frente e outro atrás, aí olha pra trás e acha várias. Ou nem acha: se perde. Um quadrado, quatro lados, me mostrando. Não poderia fugir daquilo: notei. Parada, eu gritava, e era pela minha boca que eu saía. Usar "eu", agora, já é algo bem grande, mesmo que fosse pequena, porque eu ali estava em várias. E a sala pegava fogo. Eu ria em pânico, como quem quer chorar, mas não chora. Como o Jack Nicholson no filme do Kubrick, eu chorava sorrindo, e ninguém percebia. O problema não estava no quadrado, mas em ter pintado todos os outros antes daquele. Minha alma queimava junto com aquela sala. Se eu tivesse uma, ela queimava. Que dor, que dor. Eu tão meiga pra eu tão sórdida. Doía. Alguém me puxava, e eu não saía de mim, mas puxava, puxava forte, gritava dentro do meu ouvido, e eu aqui dentro. Eu presa. Eu tão livre, mas presa. Eu não podia não ser eu, aí me dei conta da merda. Marlene, Júlia, Carla, ninguém era eu, e eu não era ninguém. Até que percebo: o final me assusta. Pintei o último quadrado, e fui embora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário