sexta-feira, 29 de julho de 2011

Coração.

Olhando aqui e ali, notei que a tal da cadeira estava com um pé quebrado. Aí vem alguém e bota um pé. Por quê? Deve-se deixar a cadeira como a vida a deixou. Pralguém sentar e cair. Porque, se quebraram a cadeira, alguém vai sentar e cair. Não se deve consertar nada nesta vida. O fundo preto mexia, e a minha visão embaçava, totalmente psicodélico e colorido. Arco-íris em preto e branco, tudo se mexia naquele fundo preto, e a minha visão embaçada. Era o sol. Vai ver era o sol me enganando. Aí a gente sentou, e eu olhei nos olhos dela. Eu olhei bem de perto e vi que aqueles olhos - aqueles olhos meus - pareciam aranhas. Aranhas grandes e venenosas, perdidas nas teias. Aquilo me assustou - como se todo olho fosse, no fundo, uma aranha. Um homem branco com roupas brancas perguntou o que eu iria comer. Eu olhava os olhos, aqueles olhos tão meus, cada vez mais meus, e olhava o homem branco. Falo como se fosse preta, mas nem sou. Veio em mente toda aquela confusão das tardes de terça, das pessoas nas ruas, das risadas totalmente proibidas, e eu não sabia. Eu simplesmente não sabia. Peguei o cardápio e fingi ler. Eles me olhavam esperando. Eu fingia. As terças-feiras estavam na minha cabeça, eu não conseguia pensar em mais nada, será que eles não entendiam isso? Pensei em anotar no guardanapo, "não consigo pensar". Mas ela acharia totalmente contraditório. Continuei lendo. Passei por peixes, massas, parei nas bebidas. O homem branco achou que eu fosse alcoólatra - e eu nem mesmo sabia o nome dos vinhos. E as terças-feiras na minha cabeça. Olhei pra cima, aqueles olhos de aranha fundos olhando pra os meus. Eu estava louca, só podia. Como se a história parasse, e eu não soubesse mais continuar. Mas tudo continua, mesmo que finde. Fingi tossir - era o único jeito de continuar. Mas ela nem acreditou. O homem me cobrou, delicadamente, como quem fala um palavrão bem lento. Como quem vai dizer "porra", mas diz "por favor". Aí eu vi: aquela era eu. Aquela com olhos de aranhas era eu - com oito pernas, em oito direções. Eu em todos os ângulos, de fora, de dentro. O homem branco me cobrou, e vi que eu nem devia estar ali. Gastei sua meia hora, e respondi: eu não sei o que eu quero.

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