quarta-feira, 1 de junho de 2011

Woody Allen, etc.

Estou eu no meu velho silêncio. Velho, sim, por mais que não o use com tanta frequência, sempre está no mesmo lugar. Mas estou ouvindo o barulho de crianças brincando no prédio vizinho. Ontem, eu senti um dos cheiros da minha infância, ao ir à janela. Não sei de onde viria esse cheiro, - tanto há anos, quanto atualmente - mas eu gosto. Eu tenho forte sinestesia, desde que minh'alma habita meu corpo, - sim, peguei mania de escrever "minh'alma", apesar de nem saber se existe uma - enfim, desde o meu sempre. Este blog está parecendo um diário, ultimamente. Mas sem desabafos diretos, apenas com o que sinto. E eu que sempre detestei diários. Estou lendo "Cuca Fundida", do Woody Allen. É um bom livro, divertido também. Nunca havia lido o Woody, apenas visto seus filmes, igualmente bons. Aliás, adoro falar "Woody". Lembrei agora de uma frase, do Guimarães Rosa, "Viver é etcetera". Sempre gostei, mas nunca entendi totalmente sua essência. Não foi o tipo de frase que me deu epifanias, como noventa por cento do que leio da Lispector, mas me provocou curiosidade, desde que a li pela primeira vez, mais ou menos, no ano de dois mil e nove. O que é etcetera? Eu só uso etcetera quando não lembro de mais exemplos, ou quando tenho preguiça de mostrá-los, ou quando é desnecessário falar. Mas etcetera diz "há mais biscoitos de onde este veio". Viver é isso, então? É não lembrar de tudo, ter preguiça e não dizer tudo que vier em mente? É saber que há mais disso ou daquilo, mas que você não precisa vê-los agora? Não sei. Após "etc", usa-se o ponto. Após a vida, há um ponto? Novamente, não sei. Não é pergunta retórica: não sei, mesmo. Acho que há um por cento de chance de terminar com uma vírgula, ou com dois pontos e mais nada, quem sabe. Mas "viver é etcetera" é lindo. E viver é bonito assim, sim. Continuo inside. Voltando ao Woody, em certa passagem do livro que citei, ele diz "Biologia Moderna: (...) Análise do sangue e explicação completa dos motivos pelos quais a melhor coisa a fazer é deixá-lo correr pelas veias". Olhando pelo lado filosófico, concordo com ele. Talvez, a gente insista demais em mudar o fluxo e, por isso, tudo dê errado. Talvez, deixar o sangue correr seja melhor. Talvez, ele esteja errado - eu esteja errada. Talvez, tanta coisa. Tanta coisa, que prefiro não pensar: deixa correr pelas veias. Segundo o próprio Woody - repitirei, mil vezes, esse nome - "Penso, logo existo" seria melhor expresso na forma de "Olhe, lá vai Edna com o saxofone". Termino com um "etc": etc. Ou seja: vida.

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