sábado, 11 de junho de 2011

Tic Tacs e Sofia.

Eu vi uma menina - que é diferente de "menininha" - sentada no chão, ao lado da escada. Havia um monte de crianças brincando, umas correndo, outras sentadas. Elas quase tropeçavam em mim. "Vá brincar também, meu amor" disseram. "Não quero" respondeu. E eu nunca vi olhar mais triste do que aquele. Só o meu. Eu pensei em sentar ao seu lado e fazer companhia, se ela quisesse. Mas eu não fui. Eu não sei por quê. Mas não fui. Penso: eu deveria ter sentado, perguntado por que ela não brincou, dito "sei como é", - verdadeiramente falando - feito algo que a confortasse, não sei. Ela tinha tic tacs coloridos na cabeça, como quem se arruma tanto para nada. "Eu sei como é, menina. Eu nunca fui como as outras. Ou fui e não me permitia ser. Faça o que quiser, menina. Você só deve ser feliz. Se quiser ser triste, seja no futuro. Agora, com a pouca idade que tem, - e eu não tenho muita - deve fazer coisas boas, pra lembrar delas." Eu diria. Estou um pouco arrependida de não ter falado nada disso, de não ter sentado ao lado dela. Será que alguém já pensou o mesmo, ao me ver? Eu não lembro de tanta coisa. Eu só lembro que não era bom. Será que eu seria diferente se alguém houvesse feito isso? Tenho medo da resposta. Mas ela vai mudar. Ela não vai ser pra sempre uma menina com tic tacs no cabelo. Que ela não seja covarde. Havia também a Sofia. Há a Sofia - digo "havia" porque não a vejo mais. A última vez que a vi foi há cinco anos. Ela estava segurando uma bolsa da Barbie e chorando desesperadamente. Eu me aproximei e perguntei o motivo. Ela recuou. Perguntei novamente, ajeitei o cabelo dela. Ela disse que tinha medo de ser abandonada pela mãe, na escola. Sofia não tinha amigos. Tudo aquilo era de uma verdade extrema, tão extrema e frágil. Um adulto diria aquilo? Não sei. Eu disse à Sofia que a mãe dela não a abandonaria, e fiquei ao seu lado. Sofia parou de chorar e me amou de repente. Sofia nunca mais chorou. A gente conversava todos os dias, e ela fez amigos. Ela trocou as lágrimas desesperadas por uns sorrisos. Sofia não deve mais lembrar de mim, mas eu lembro da Sofia. Sofia deve estar alta, linda e inteligente. Ela sempre foi muito inteligente. Sou um pouco da Sofia também, e ela deve ter algo meu com ela, mesmo que não lembre. Eu espero que a Sofia sente ao seu lado na escada, que diga que sabe como é. Eu espero que a Sofia mude a sua vida. Eu não espero que ela lembre de mim, nem que tenha me esquecido. Eu só espero que a Sofia seja sempre assim: de uma verdade extrema e frágil. Vai ser Sofia na vida, também.

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