domingo, 29 de maio de 2011

Zero hora.

- Você perdeu muito da sua timidez, mas eu sempre te reparei um pouco envergonhada, quieta.
- É, no fundo, eu ainda sou um pouco tímida - Falou, sem olhar em seus olhos, com ironia. Porém, ela mesma sabia, dentro de si, que isso era verdade. Nem olhar nos olhos dele pôde. Por timidez e por mentira. Ele, que não era bobo, nem havia nascido no dia anterior a aquele, calou-se. Mas ela doía, ela se doía, porque não sabia conter isso. Aquilo tudo doía nela, mesmo que ela soubesse a verdade. Ela queria o melhor, sim. Mas ela não sabia como tê-los: ele e o melhor. Ela não se aguenta, ela cansa. Ela cansa, sim. Ele sempre soube que ela cansaria. Dele, nunca. Da situação, sim. Tudo aquilo doía nela.
- Quereria te dizer frases que começassem com "é que", eu sonhei com isso, noite passada. Mas, agora, não consigo dizer.
- É que eu te amo.
- Você consegue.
- É que não planejei. Por isso, consigo duas vezes.
- Quereria te falar coisas lindas, coisas que você ouvisse e dissesse "como somos parecidos", mas não sei se somos, a esse ponto. Eu não parecia comigo. Sei que parece contraditório, mas não é, não. Mas já me disseram, tantas vezes, "espere". Na fila, na recepção, na família. Já me mandaram, tantas vezes, esperar. E acabei vendo a minha vida passar, em primeira fila. Mas não adianta: quanto mais de perto eu via, mais queria mudar. Sair da inércia, apesar de nem gostar tanto dessa palavra. Talvez, por isso, queria sair dela. Eu tenho saudades recentes. Há saudades recentes, sim. Eu vou sentir saudade, daqui a um minuto, de dizer que terei saudade daqui a um minuto. O relógio está contando, ele não conta errado. Relógio até marca errado, mas a frequência é a mesma. E foi nessa mesma frequência que mudei, mas mudei errado. Acertei os ponteiros, agora. Para mim, será eternamente zero hora, e eu sempre vou poder recomeçar.
- É que.
- Sim, é que. É que eu gosto de começos. É que gosto de novidades. E você sempre será uma novidade para mim. Zero hora, agora. Irei do zero ao infinito. Vou deixar que o infinito me leve, e vou lembrar desses sorrisos, tão bonitos, que trocamos. Seu sorriso está no zero. E sempre poderás sorrir, de novo. É que é tanta coisa, que tudo se resume a zero. Mas eu ando de outro jeito, em outros passos, em outro ritmo. Troquei aquele chiado, zumbido, essas palavras que mais parecem nomes de monstros, troquei por música. E meu coração baterá enquanto houver ritmo para acompanhar. Eu vou sorrir no ritmo, eu vou chorar no ritmo, eu vou mudar o ritmo e sorrir e chorar no ritmo do ritmo. O que há entre um ritmo e outro? Há silêncio. O que há entre dois silêncios? Eu não tenho mais me perguntado isso. Aceitei meu mistério de ser. Mas não aceito o teu, teu mistério é mais interessante que o meu, para mim. E, se assim não fosse, eu não teria falado tanto sem saber ao menos o que falei. Escrevendo como quem desliza as mãos em qualquer letra, e deixe que ela invada sua cabeça e te faça dizer coisas assim, sem sentido algum.
- Eu não sei o que dizer.
- Então, não diga nada. Zero hora, em ponto, vírgula e aspas. Essa hora não é minha: é dela. A hora é dona da hora, como eu sou dona de mim. Mas a hora é dona de mim, também. E me deixo girar ao redor do mesmo círculo imaginário, com esses mesmos números. Acho que relógio agradece quando quebra, deve ser cansativo viver dentro de um vidro e girar sempre no mesmo sentido, na mesma frequência. Relógio só marca hora, e hora marca a gente. Vou parar, minha hora chegou.
- Você disse que seria eternamente zero hora.
- Sim, e sempre poderei recomeçar.
- Então, sua hora chegou e chega e chegará. Para quê ir embora?
- Porque é zero hora, querido. Zero hora chegou, e me levou pra conhecer os outros números.
- Seu relógio está parado.
- Sim, está. Parou quando você chegou. E vai continuar parado, e nunca entenderei esse relógio, que eu mesma criei, e eu mesma não sei quebrar. Tu não me entendes, zero hora. Eu não cobro de uma hora que ela me entenda. Eu não me entendo sempre, porque nem sempre me aceito. É que...

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