domingo, 29 de maio de 2011

Borboleta.

Era uma borboleta. Ela não sabia sair do casulo. Até saía, olhava o que acontecia ao redor, e fechava-se de novo. Ela saía com dificuldade: borboleta não sabia lidar com isso. Sim, era casulo. Ela tinha veneno guardado, só pra se chamar "borboleta venenosa". "Natureza me deu veneno só pra me chamar de venenosa" Pensava. Sim, borboleta pensava, também. Com palavras e tudo o que os humanos usam para complicar o pensamento. O pensamento por si próprio já era suficiente, mas não... Um dia, borboleta foi ao médico. Ele receitou um remédio que deveria ser tomado trinta minutos antes do almoço. Ela logo se assustou. Não havia problema em tomar remédios, mas ela teria que contar trinta minutos antes do almoço. Borboleta detestava esperar, e detestava mais ainda ter que não ser mais surpreendida quanto ao horário do almoço. Sim, ela sabia que iria almoçar, mas ela não queria saber a hora. Mas, agora, era obrigada a saber! Borboleta não sabia lidar com isso. Presa em seu casulo, tomando remédios e contando trinta minutos: - suficientes para passar sua fome - fome planejada não tinha. Tudo bem, ela se adaptou. Afinal, ouviu, em algum lugar, outra borboleta falar "a gente acaba se acostumando, Amélia". Porque Amélia era nome de borboleta. Amélia voava só dentro de casa. Amélia é que era borboleta de verdade. Ou não? Ela viu Amélia com alguns brinquedos. E, para sua surpresa, não queria os brinquedos de Amélia. Não, ela não desejava mais aquele cor-de-rosa tão infantil. "Cresci" Pensou. Crescendo, tentou sair do casulo, lentamente. Mas não conseguia. Crescer não era essencial pra sair de um casulo. Não-mais-brincar não era essencial para sair de um casulo. Mas borboleta viu longe, muito longe, umas letras que mais pareciam formar a palavra "AMOR". Em maiúsculo, sim, que apesar de encasulada, ela sairía por algo muito grande. Ela não queria um amorzinho, nem amor, queria AMOR, mesmo. Borboleta ficou espantada, não pôde parar pra pensar, saiu voando, vôou daquele jeito pela primeira vez. Borboleta saiu desajeitada daquele abrigo tão antigo, e vôou rápido, tomou cor. E descobriu: amor podia bater várias vezes à porta, que seria sempre bem-vindo. Poderia ser qualquer hora, qualquer turno, borboleta voava com ele. Borboleta sabia que tudo aquilo poderia acabar, como vem a chuva e acaba com o fogo: natureza não sabia o que fazia. E borboleta sabia que dói mais aquilo que acaba aos poucos, do que por inteiro. No entanto, ela foi. Prosseguiu, com seus remédios, trinta minutos e AMOR. Orgulhosa, à mostra: ali havia uma borboleta, sim. Amélia havia ido embora.

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