segunda-feira, 23 de maio de 2011

"(...)"

Ela se deslizava. Ela se deslizava toda, como se a vida fosse um escorregador, depois da chuva. E ela saía, escorregadia, descalça, pisando no mundo, e ele não pisava nela. Ela era tão pura, ela só tinha chuva, mais nada. Chovia todos os dias, andava chovendo. Ela, não a chuva. Aquela chuva-em-multidão, com tantos pés, tantas mãos, molhando tudo o que encontrasse pela frente, por trás, pelos lados. Ela se deixava molhar, seja lá do que a chuva fosse feita. Ela queria ser molhada, escorregar. Ela conheceu eles. Três. Conheceu nos livros. Ela sabia que amar em primeira pessoa era difícil, mas amar em terceira era brega. Amor é tão brega, quando são eles. Ela? Não, ela nunca se deixaria molhar por isso. Ela era primeira pessoa, e leu, em alguma página, que amar em primeira pessoa doía. Ela foi amar em terceira. Melhor brega que cansada. Então, conheceu ele. E ela descobriu o que era "piegas". Amar nunca era piegas. Foi a primeira pessoa que disse. E ela misturava, o tempo todo, essas pessoas, esses verbos, essas palavras coloridas, por aspas, nas aspas, descontínuas, como se a gravidade houvesse esquecido dela, e se misturava junto, e caía, e tentava gritar, e não conseguia. Gritar era piegas. Ela queria escrever "cansada" com exclamações, várias. Mas isso era piegas. Ela queria fugir, queria tanto, tanto. Ela tinha raiva, ela não era mais tão pura, ela não se deixou mais molhar. E olhou para si mesma, cansada, com exclamações, ridícula, na merda, no choque, e pensou "(...)". Era só isso, mais nada.

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