sábado, 14 de maio de 2011

aMMor.

Mia e Mateus "se amam". Eles andam, juntos, todos os dias. Mia é feliz com Mateus, mas Mateus é feliz com a Mia, não com Mia. O problema é que Mia é várias: não é a Mia, não é alguém. Mia é Jéssica, Luana, Maria Helena, Maria Sofia, Audrey Hepburn. Mia é sua mãe, seu pai, seus irmãos, seus filhos que ainda não nasceram. Mia é Lady Di, Nietzsche. Mia é deus, Harrison, Lennon, Mia é strawberry fields forever. Mia é música, Mia é arte, Mia não pode ser só Mia, porque só isso é pouco demais pra o que ela tem por dentro. Ela sonha, ela deseja, ela aspira, respira, transpira. Se Mateus a ama, ele não precisa amar a Hepburn, nem a Lady Di, nem o Nietzsche. Ele nem precisa acreditar em deus. Mateus só precisa amar a Mia por inteiro, a que sorri enquanto chora, a que anda devagar como filmes em câmera lenta. Mateus precisa amar a Mia que fica triste sem motivo, que chora em frente ao espelho, que chora atrás do espelho, que chora sem espelho. Mateus precisa amar a Mia que chora, também. Não só a Mia que sorri. Mas Mateus não a entendia, não. Porque Mateus insistia em ser só o Mateus. E ela era mil dentro de uma. Ele não queria que eles se amassem, então, não se amariam. Mateus e Mia não se viram mais. Mateus guardou Mia para si, enquanto Mia tornou-se um pouco do Mateus, também. Ela tinha essa mania de ser muitas. Mia via vários em um, um em vários, e via tudo isso em voz baixa, calada, com a porta fechada, do jeito que ela sempre foi. Mia tinha uma puta inocência dentro de si. Inocência, não: esperança. Esse era o nome certo. Esperança é mais importante que inocência, porque sobrevive, apesar de tudo. Ela observava a quantidade de vezes em que seus olhos piscavam, e tinha medo de não conseguir mais parar de contar. Ela se agarrava ao tic tac do relógio, pra saber se estava sonhando. Ela tinha medo de pessoas desagradáveis. E, às vezes, essas eram cordiais com ela, mas ela sabia que, no fundo, talvez não estivessem sendo dessa forma. Ela não estava naquela cabecinha, ela sabia disso. Mas ela queria entrar, e misturar os seus com os dos outros. Mas não tudo: algo era só seu. Ela andava em sua própria cena, ela girava ao seu redor, ela deixava um pedaço seu em cada canto andado da casa. Mas nem todos que passavam poderiam vê-la. Mia era muitas, inclusive, invisível. E não se desmanchava, pois, para cada pedaço deixado, havia um novo. Mia estava feliz, sendo mil-e-uma-mia: ela tinha essa mania de ser muitas.

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