sábado, 2 de outubro de 2010

A pegar.

Apego: pegar, contagiar, valer-se de ou inserir-se. Meu: de mim, pertencente à minha pessoa. Parece que tudo se torna menos meu. Não falo no sentido negativo, como se perdesse algo, me refiro ao fato de perceber, cada dia mais, que nada é e nunca foi meu. Não sinto raiva: só pena. Parece que nada me pertence, nem eu a mim. Estranho-me incontáveis vezes. Eu, sinceramente, ainda não consigo acreditar que existo. Observo minhas brancas mãos e vasos sanguíneos em tons azuis arroxeados, pulsando um sangue que circula todo o meu corpo e passa dos pés ao encéfalo, e acelera, e diminui. E tenho neurônios, hormônios, sorrisos, e tenho lágrimas. Tenho pele, vida e opinião. Eu não consigo acreditar que tudo isso seja meu. Por que meu? Por que eu? Como eu posso ser e existir? Sinto-me leve, flutuando, voando em uma matiz colorida da não-cor. Quem é que fala aqui? Quem é que grita? Quem é que sente? Será que escolhi ser eu? E quando escolhi, já era eu? Nasci ao passo em que chorei pela primeira vez? Ou nasci ao criar pernas, braços e cérebro? Nasci em mim? Eu sou eu, mesmo? Acho que esse estranhamento - que, por sua vez, é ainda mais estranho - ocorre porque não me sinto em mim. Parece que estou em algum lugar, menos aqui dentro. Eu vejo de fora e então, não sei onde estou. Soa estranho, mas, simultaneamente, esclarescedor. Eu sou sem saber o quê. Acho que nunca saberei, só sinto. Tento jogar tudo em palavras, e elas cobrem o que sinto. Sinto até escrever. Quando escrevo, muda. Somos tão limitados em um mundo sem limites. Sou tão "grande" que me perco, e gosto, porque sou todos em um, e um são todos em mim. Eu só sei o que eu não quero: choros dramáticos na noite de sábado, declarações exageradas e irreais, nem quero ser tudo pra alguém, nem ser nada sem ninguém. Não quero que não saibam viver sem mim. Não quero lugar-comum, nem trivialidades, nem apertos de mãos guardados em hipocrisia. Não quero novelas mexicanas, nem um grande número de conhecidos ou elogios desmotivados. Eu só quero ser especial quando realmente for. Não me exagere, nem me diminua: veja como sou, perceba que somos. Aprendi a gostar dos poucos e bons, e só eles me importam. Eu sou assim, ame ou deixe. Não me ame pela metade, nem diga que sou "legal" ou "chata", não me idolatre, nem me odeie sem conhecer pelo menos um pouco de mim. Ame-me, odeie, ou me ignore, mas do seu jeito. Não mude por mim, mude por você. Não tente ser perfeito. Nem espere que eu minta quando perguntar. Quando eu me isolar em alguns momentos, não grude. Eu só gosto de estar só pelo menos uma vez por dia. Nem leve a sério tudo que digo, os dias me fazem mudar de idéia. Não minta para impressionar: isso só pressiona. Não se force a entender: sinta ou não sinta. Ame-se, e assim sobrará mais amor para dar.

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