domingo, 10 de outubro de 2010

Dos sentidos a observar.

          Neste momento, sinto as teclas com meus dedos e com alguns centímetros das palmas das mãos, ao mesmo tempo em que meus cotovelos encostam em minhas pernas cruzadas, e essas sentem a textura da cama. Estou olhando o que escrevo com um par de olhos quase pretos. Ouço o vento gritar na janela e um carro que passa com pressa. Simultaneamente, sinto o cheiro da minha mão direita recém-lavada e, em breve, algum cheiro infantil retornará, trazendo nostalgia.
          Eu sempre achei impressionante a forma como sabemos que vivemos, que tocamos, olhamos, ouvimos e cheiramos. Aliás, eu sempre me impressionei por fazermos tudo isso. E se não tivéssemos esses sentidos? Viveríamos na escuridão? Ou criaríamos um mundo nosso, com sentidos próprios e novos? Será que já fizemos isso? Talvez não existam cores, nem cheiros. Talvez vivamos na escuridão e criamos o mundo, com esses sentidos, para acreditar nele e sair do tédio. Não obstante tudo isso, continuo não acreditando que existo, assim, dessa forma. Talvez existamos em outro lugar e inventamos essa "realidade" para fugir da verdadeira. É tanto "talvez".
          Possuo quatro sentidos: tato, visão, audição e olfato. Mas não uso os quatro com igual intensidade. Observo mais, sinto cheiros com facilidade também. Eu nunca presto atenção nas roupas que você usa, ou na cor delas. Nem nos sapatos ou em qualquer acessório. Mas eu sempre reparo, e terei decorado, os gestos que você faz, a forma com que sorri, o quanto abre a boca enquanto faz isso e a porção da sua gengiva que pode ser mostrada nesse ato. Também recordarei o tempo com que pisca os olhos entre uma palavra e outra, para onde sua pupila vai quando mente ou é sincero, e, principalmente, o cheiro daquele momento.
          Muitas experiências criam capas em nós. O bom observador sabe tirar essas capas sem que ninguém perceba. Ele vê quando sua perna treme em uma sala silenciosa e sabe que há gritos dentro de você. Ele vê quando você sorri e seus olhos choram, e sabe que há medo. Ele sabe quando você é você mesmo. Eu sinto falta das pessoas que observam. Sinto falta dos que sabem que você está bem ou mal, mesmo sem saber o nome dos seus pais. Daqueles que conhecem seu perfume, mesmo sem saber a marca. Dos que sabem imitar suas manias, mesmo sem morar com você. Eu sinto falta dos verdadeiros observadores.
          Bem, todos observam, cada um enxergando a parte que mais lhe interessa e deixando escapar alguns detalhes. O bom observador não é quem vê mais coisas ou sabe qual roupa você usou na manhã passada. Não é quem percebe o que as pessoas parecem ser: é quem enxerga o que cada um deseja ser, e sabe quando isso acontece conscientemente ou não. A verdadeira pessoa que oberva não vê só o que há do lado de fora: vê, também, o que há do lado de dentro, lá no fundo, e que você tanto tentou esconder. O que adivinha não observa, mas sim aquele que descobre o teu verdadeiro eu, escondido entre tantas capas que você carrega, todo dia, fingindo que tá tudo bem.

Um comentário:

  1. O bom observador sabe tirar essas capas sem que ninguém perceba. Ele vê quando sua perna treme em uma sala silenciosa e sabe que há gritos dentro de você. Ele vê quando você sorri e seus olhos choram, e sabe que há medo. Ele sabe quando você é você mesmo. Eu sinto falta das pessoas que observam. Sinto falta dos que sabem que você está bem ou mal, mesmo sem saber o nome dos seus pais. Daqueles que conhecem seu perfume, mesmo sem saber a marca. Dos que sabem imitar suas manias, mesmo sem morar com você. Eu sinto falta dos verdadeiros observadores.[2]
    Perfeito :)

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