sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Um monte bem pequeno.

Alguém dizia que a vida é muito esquisita. E eu não discordava. Não por educação, elegância ou falta de coragem. Eu não discordava mesmo. Há um oco bem no fundo, quando você bate na madeira pensando que há muito dentro, mas não tem nada. E, por incrível que pareça, o tal do oco pode doer. Oco que é branco e indisciplinado. Vem e vai quando quer, não controle, não fuja. É ridículo demais observar que você realmente acha a vida meio sem graça - meio: o pior de tudo. Cadê a outra metade? -, quando ainda não se viveu quase nada. A vida é esquisita, e eu concordo. Hoje eu li Assis. Ele dizia que outro poeta dizia que o menino é pai do homem. Isso foi epifânico pra mim. O menino veio antes e tudo o que você já sabe, mas seria ele capaz de cuidar daquele homem todo contido, com cinto em cintura, abotoado e sapatos sociais? Aquele menino bobão e medroso, que não atravessa a rua sem uma mão na sua. Aquele que acha mesmo os cheiros tão bonitos e, por vezes, tão reais, seria mesmo ele capaz de cuidar daquele homem, que nem cheiro sente mais? Não sei, Machado. Mas bonito é, mesmo. Que dor de pardal. Eu passo as folhas e vou ficando para trás - são elas que me passam. E nem as ruas, nem a maresia, nem tudo aquilo animava. Deixei-me em casa, saí sem mim. Que dor de pardal. Meus pés andam, e eu continuo no mesmo lugar. Hoje eu vi sangue, foi estranho. Eu não me importo com sangue, não sou mole, nem nada. Mas aquele sangue foi esquisito, a situação. Toda corroída, não roía as unhas porque não as tinha mais. Roeu-se toda e por inteiro, até se olhar despedaçada. Assim ficou, com dor de pardal.

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