terça-feira, 31 de maio de 2011

Só.

Eu ouvi aquele ruído chato. Aquele ruído chato que mais parecia minh'alma gritando. Minh'alma é mais bonito que minha alma, pois é um só. Sozinha, me sinto cada vez mais estranha. Minha cabeça pesa. Não sei mais se estou sendo, acho que não. Meu sorriso não aparece mais aleatoriamente. Estou séria em frente ao que escrevo, dentro disso, longe daquilo. Escrevo tão alienada, tão alienada, que não sei bem o que digo, ou se deveria dizer. Estou triste, é isso. E olho ao redor, - e detesto começar uma frase com "e olho ao redor", não pergunte o motivo - e sei que não é bem assim. Mas minha cabeça pesa. E eu me sinto pesada, as coisas voltam a não ter mais tanta graça. Eu não gosto de andar sem rumo, desse jeito. Só no literal. Em mente, não. Quero que meus pensamentos tenham rumo, que eu saiba o que fazer, que eu tenha certeza do que quero fazer, que eu seja mais simples - só hoje. Mas hoje é amanhã, já já. Tarde pra pedir hoje pra hoje. Quereria dizer, realmente, tudo e todos que passam aqui. Mas não posso - não quero. Quereria. Sinto-me como uma criança que veste os vestidos da mãe e não sabe tirá-los: se perdeu lá dentro. Eu lembro do cheiro do meu vestido. Eu lembro do cheiro de uma flor pequena e lilás, que havia na segunda casa em que morei, eu tinha uns quatro anos. Eu lembro que gostava de sair, ir ao jardim e sentir o cheiro da flor. E eu sequer imaginava que lembraria daquele cheiro. Eu sentava no banco, andava pela grama, conversava com as pessoas. "Tomou água da chuva de Janeiro" diziam. Eu falava demais. Não deixei de falar tanto, não. Mas ando inside. Já não sei mais sentar em bancos e sorrir ao vento. Já não sei mais sorrir ao vento. Já não sei mais colocar um chapéu rosa imaginativo e sorrir ao vento. Três lados. Um lindo, outro triste, outro eu não lembro, no momento. Mas não houve nada de realmente ruim, não. Só é triste tornar-se inside, assim. Mas, segundo Lispector, eu sou a mesma de sempre, só desabrochei em rosa vermelho-sangue. Irei dormir, e acordarei melhor. Nós sabemos como sou. Vou guardar minhas palavras, me sinto melhor em silêncio, agora. Vou deixar minha cabeça descansar, vou deitar, amanhã é amanhã. "Dorme, menina, dorme que quase tudo passa."

Um comentário:

  1. Diziam o mesmo pra mim. Quem diria que a garota tagarela, se tornaria uma garota que soubesse selecionar os momentos de falar e calar. É, tudo na vida é aperfeiçoado. Por mais que eu tenha uma certa sede de expôr, falar menos talvez seja melhor pra mim. Ou não. Enquanto não falo, escrevo, enquanto não escrevo, penso, enquanto não penso, durmo. Enquanto durmo, sonho. Enquanto sonho, tenho mais chances de realizar.
    Gostei muito do texto. Sempre vejo muito em comum entre nós.

    Beijos,
    Débora.

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