Eu ocupo um lugar no mundo. Agora, do nada, neste momento que não existe, porque nada surge do nada, eu me dei conta disto. Eu existo no mundo, e o mundo existe em mim porque nos percebemos. Eu, espaço de complicações e linhas interligadas, descuido desintencional depois de tantos anos. Surgi. Surgi sem avisos e inesperada. Eu mesma não acredito ainda. Não sei se eu era eu quando surgi, não sei o que restou, nem sei de onde veio o resto, esse resto que sou eu hoje. Eu, espaço reconhecido com um corpo capaz de se olhar. Então, eu me dou ainda mais conta de que não posso "me dar conta de nada"; de que a conta seria infinita. Eu ocupo muitos lugares, e muitos lugares me ocupam. Eu sou os lugares e deixo as pegadas das minhas sapatilhas por onde ando. Outros pisarão por cima; outros, que não eu. Outros de quem me distancio quando os critico. Outros a quem me ligo quando me reflito no espelho que esses outros são. Sempre o espelho, sempre eu. Não poderei fugir, e também não se...
Que dor perder um pensamento. Gosto tanto do mundo e das pessoas, que sinto que sou todas ao mesmo tempo e, quando um pensamento se vai, uma parte de alguma pessoa de mim vai embora também. Que dor partir. Que dor chegar com a sensação de estar indo embora (ou de que tudo foi embora antes de si). Mas partir também é chegar: “a partir de agora”, só falarei do que interessa: dos fatos concretos, dos lugares em que a concretude se constrói. Os lugares têm história: eu sorria ali um dia desses, e agora minha vontade é de chorar. Mas, antes da minha história, há a história da história do lugar, e ela me afeta sem querer, mesmo que eu não a conheça. O vaso vitoriano me dá paz. E quero comprar camafeus e echarpes verdes e me sentir o vaso. O vaso vive em mim, e eu não carrego flores. Eu não sei carregar flores, não tenho a doçura da imagem, nem a fortaleza da terra. Tenho só o pranto iluminado que cai do céu e frutifica. Meus frutos são estes. Estes invisíveis e sem nome, inúteis. Mas fr...
E quando não houver mais Futuro a ser pensado Que farei eu com O presente? E o passado será capaz De ter em paz O seu destino? Poderei eu dormir Sem relutar? Seja uma noite Ou toda a vida Junto às estrelas E passarinhos - Virei ao ninho Por não saber Outro lugar? Ah, o futuro... A Deus pertence! E, se Ele não existe, É certo que não pertence A ninguém (Ousei roubá-lo Mas como furtar O que somente O nada tem?) Só de interrogações E parênteses abertos Vive o pensamento - O meu, ao menos, Que o teu agora Se perde em vagas E esparsas linhas.