pego muitas gripes e choro todos os dias o choro do cachorro me afoga o choro das famílias me sufoca me movo e saio do meu corpo entro noutro e vou a fundo sofro sofro sofro me perco no mundo e o mundo se perde em mim sou muito suscetível fraca, pobre incrivelmente qualquer um que não eu fujo de mim com minhas próprias pernas e meus pés trinta e sete me encontro sem querer inerte, afogada: sofro sofro sofro e já nem estou mais aqui senti a dor do mundo inteiro sozinha.
sou toda de dores e pudores mas também de amores sou feita e de rimas perfeitas em breguice quem foi que disse que preciso ser coerente? não me engano e sou crente quando digo: não sei ser clara de propósitos eu sou sozinha e adormecida nada me dói nada me revive só quero estar sozinha no meu cubículo lido melhor comigo e com meus dilemas do que com os problemas que não me habitam e no fim talvez eu seja um cão um viralata consumido pelos dias em que não sabe o que se é direito se vítima ou suspeito do seu próprio crime: nasci sem explicações e gosto de estar na minha sou narcísica marciana esquisita sou parasita deste corpo que não me pertence e dói um pouco acordar todos os dias e ver que existo em mim que viver é mesmo uma dor sem fim e que adormecer não me trocará os olhos nem os ouvidos e que os dias vividos num outro dia se perderão na história da memória nas rimas sem compromisso sou rebuliço de agonias desde a entr...
Eu ocupo um lugar no mundo. Agora, do nada, neste momento que não existe, porque nada surge do nada, eu me dei conta disto. Eu existo no mundo, e o mundo existe em mim porque nos percebemos. Eu, espaço de complicações e linhas interligadas, descuido desintencional depois de tantos anos. Surgi. Surgi sem avisos e inesperada. Eu mesma não acredito ainda. Não sei se eu era eu quando surgi, não sei o que restou, nem sei de onde veio o resto, esse resto que sou eu hoje. Eu, espaço reconhecido com um corpo capaz de se olhar. Então, eu me dou ainda mais conta de que não posso "me dar conta de nada"; de que a conta seria infinita. Eu ocupo muitos lugares, e muitos lugares me ocupam. Eu sou os lugares e deixo as pegadas das minhas sapatilhas por onde ando. Outros pisarão por cima; outros, que não eu. Outros de quem me distancio quando os critico. Outros a quem me ligo quando me reflito no espelho que esses outros são. Sempre o espelho, sempre eu. Não poderei fugir, e também não se...