sábado, 28 de março de 2015

Uma crônica sobre nada



É impressionante a comoção que o nada causa. Há alguns dias, peguei na biblioteca da Universidade o “Livro sobre nada”, do Manoel de Barros. Ao registrar o empréstimo, a bibliotecária arregalou os olhos e disse: “SOBRE NADA? Que livro é esse?”. Eu ri porque a cena realmente foi engraçada, mas no fundo fiquei triste pela necessidade de literalidade daquela mulher. Acabei não pegando o livro no momento, pois o sistema da biblioteca estava fora do ar.
Horas depois, voltei a insistir no empréstimo – desta vez, havia um senhor do outro lado do balcão. Mais uma vez, a cena se repetiu: “Que diabo é isso de livro sobre nada? Mas, rapaz, sobre nada não dá!”. O que achei mais engraçado disso tudo foi que ninguém percebeu que o tal “nada” era tão grande e presente, que assustou a todos. Se era nada, por que tanta comoção? Por que assustar-se? Talvez, no fundo, ambos soubessem que um livro “sobre nada” não é o mesmo que um livro em branco, vazio. Mas não imaginam como o nada pode ser interessante – e que ainda é essencial para compor o tudo, tão valorizado.
Ao passar dos dias, voltei para devolver o tão polêmico livro. A moça da primeira vez se encarregou do trabalho e comentou com a colega: “Fulana, tô doida pra ler esse livro sobre nada. Do que é que trata esse livro, hein?”, perguntou. Para confirmar a lógica tradicional, uma moça ao lado, que esperava a vez de ser atendida, soltou: “Que maluquice!”. E eu saí, pela terceira vez, espantada com essa existência permanente da lógica aristotélica nas pessoas.
No pretexto do seu livro, Manoel de Barros lembra as palavras de Flaubert, que pretendia ressaltar o estilo do texto quando, em 1852, deixou claro o desejo de fazer um livro sobre nada, sem tema nenhum. Manoel diferencia-se dele, porém, ao afirmar que seu nada não propõe valorar o estilo, mas apenas “brincar com as palavras, fazer coisas desúteis, um alarme para o silêncio”. E reitera seus propósitos em versos seguintes, quando prefere as máquinas que servem para não funcionar ou quando acha mais importante o fato de um homem deixar a vida por se sentir um esgoto do que a existência da Usina Nuclear. Manoel diz que é no ínfimo que se vê a beleza.
Acho que o ínfimo e a própria beleza parecem ter fugido à maioria das pessoas (ou elas fugiram primeiro). O tal alarme para o silêncio, bem como o abridor de amanhecer, a pessoa apropriada para pedras e o parafuso de veludo propostos pelo poeta não interessam a quase ninguém. Só o útil interessa; o lógico; o possível. Que se passe longe do nada, que é tão perigoso! E que se esqueça o silêncio, que incomoda e chama a solidão. Hoje o homem é funcional, das multidões. Mas eu continuo acreditando que buscar as incompletudes e ir na contramão da operacionalidade das pessoas-quase-máquinas talvez seja uma das principais e reais necessidades atuais, quando só o sentido óbvio é convidado até mesmo à biblioteca.
Mesmo tão pequenininho, falta espaço para o nada. E, possivelmente, a falta de espaço para a literatura também tenha a ver com a constante perseguição pelo literal, pela utilização do verbo no sentido do dicionário. Mas, se “no princípio era o Verbo”, por que é tão esquisito brincar com palavras, que nos é dom divino? Se nem mesmo o sistema de uma biblioteca funciona 24 horas, por que precisamos funcionar também? Bom, eu continuo admirando a invenção do desútil. Sozinha, no meio do nada e quase em silêncio.

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