terça-feira, 22 de outubro de 2013

A dupla voz da ausência

Meu choro é um choro quase
Inútil, não fosse pelo que me liberta
Estou aberta às ajudas do infinito
Quero em matéria a energia que me fez
E cobro tanto
E grito tanto
E abraço Tvs
E abraço fotos
E beijo fotos
Como se fossem peles,
E pelos, e cabelos, e tivessem cheiro
Porque tem cheiro tudo o que não existe mais

Mas ele existe e está em paz
Eu vi no corpo:
Ou melhor, não vi no corpo
O “ele” que eu conheci
(era um corpo,
só um corpo,
mais nada).
Mas o meu pai,
O homem que foi, é e sempre será,
Sem intervalos, meu pai;
O homem eterno como o Verbo Primeiro,
Ele existe.
Meu choro, meu beijo,
Meu abraço,
Meu grito não o trazem,
Porque ele está em mim,
Porque ele é em mim,
E não há para onde ir,
Senão para onde já está;
Porque ele sou eu,
E eu sou ele,
E ele ainda vive,
E eu morri, também.

Numa dança interna,
De dentro pra dentro,
O meu pai dança,
Feliz,
Cheio do amor que nunca teve,
Mas sempre quis;
E mora em mim,
Com a sua arma, seu orgulho,
Seus passos lentos,
Com a simultânea agonia,
O meu pai mora em mim,
Com a sua angústia, com seus medos
E a segurança que finge que nada existe.
Sou sua casa:
Não estou triste.

Mas como se ele houvesse partido
E me partisse junto, eu sempre imploro:
Volte,
Por favor.
Não adianta convencer a minha falta
O meu amor é bem maior, e ficou ainda maior
Quando se misturou à dor.
Então, me resta escrever,
Como um choro libertador.
Meu choro é letra,
E eu olho pela caneta;
Meu choro é o Verbo Primeiro
Meu choro é pai de qualquer coisa que
Eu escreva
E é por isso que ele vive.

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