terça-feira, 8 de outubro de 2013

360

A minha cabeça dá mil voltas,
Mas não sente a luz do sol.
Ela gira, gira, gira,
E não para.
Na verdade, a minha cabeça nem sabe se
Gira no sentido horário ou anti-horário -
não sabe nem se há sentido em girar -,
E, às vezes, ela gira tanto,
Que esquece o que isso quer dizer -
E talvez tropece,
E talvez machuque,
E gire tão rápido, que esqueça
Que é uma cabeça:
Uma cabeça que consegue falar dela mesma;
Uma cabeça que se sabe cabeça
E pensa tanto em si,
Que esquece todo o resto,
Como se o resto fosse só resto,
E não o que a define como cabeça -
E, na verdade, é isso que esse resto é.

A cabeça de que falo é minha,
Mas não é:
É do mundo
(porque tudo o que se faz no mundo é do mundo);
É dos outros,
Porque eu sou dos outros
E já não sou eu quem falo,
Mas os outros;
E meu texto não é mais texto,
Mas intertexto de tudo que a minha cabeça ouviu
E nem lembra.
E o intertexto que sai da minha cabeça,
Que não é minha, mas é dos outros
(e de um Outro que também é meu),
Na verdade, é o mundo,
Que gira, gira, gira,
E não sente a luz do sol.

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