sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ao destinatário eterno

Papai,

tenho achado que meus sentimentos ruins (se é que eles podem ser ruins) servem, ao menos, para serem escritos e compartilhados com quem os possa ler. Eu espero que você possa me ler, também. Não num bom tom, apesar de ser louca por você, mamãe sempre diz que somos iguais, e eu devo estar me esforçando para te fazer viver. Eu espero estar me esforçando, na verdade; espero que esse caminho não seja tão natural. De qualquer forma, tudo é dolorido. Viver dói demais. Principalmente para os complicados, como nós. Acho que a diferença entre nós, mais alguns e o resto do mundo é que fugimos menos do que sentimos. A verdade é que não sei qual é o meu rumo, papai. Você sabia do seu? Me conte, não ficarei chateada se não souber. Você encontrou seu rumo? O que é rumo, aliás? Eu, sinceramente, não sei. Minha cabeça é muito mista e confusa, eu sou tão maior que eu, não sei mais onde estou. E você, aonde é que está? Não pode me contar? Tudo bem, eu entendo. Na realidade, o que eu não entendo é isto: os cartões dizem que você está vivo. Os bancos, também. Os correios. A agência de viagens. Seu nome está na minha caixa de entrada. Na minha carteira de habilitação. Nos meus cadernos de criança. Seu nome também está nas cartas, nas toalhas, na sua farda. Se todos eles dizem que você está vivo, então, por que você não estaria? Em mais realidade ainda, papai, eu não quero que sua existência se resuma ou se prenda a essas coisas todas. Eu quero que você seja livre, mas que lembre que eu o amo. Eu sempre soube que amor não liberta ninguém, só prende, mas espero que meu amor por você seja libertador. Enfim, estou tentando te deixar orgulhoso das nossas formas. E, se você ainda tiver forma, me apareça. Não tenho medo. Não tenha medo, também... tudo está quase igual, e os elefantes estão com as bundas viradas pra porta.

Beijo

Emanuele

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