segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Minha incoerente composição do ser humano


        A vida é de uma agonia sem fim, e as pessoas são estranha e igualmente infinitas. Eu olho para adultos e vejo crianças, não consigo evitar. E vejo que há algo de brilhante e eterno nos olhos de todos. Às vezes, o brilho me cega; às vezes, o brilho se liga ao meu e forma um novo sol, ou um arco-íris. Têm pessoas que me carregam pra onde os seus olhares forem; têm outras que eu nem consigo mais ver, de tão cega que fiquei (de amor, por vezes).
        Mas, junto à estrela do olho, há um vazio muito grande e escuro - para que a estrela brilhe, naturalmente. Quase sempre, esse vazio me engole, e eu esqueço que existo. Sinto como se meu corpo não fosse mesmo meu e como se eu boiasse entre órgãos vazios e vermelhos; como se meu eu pairasse no ar e voasse pra sempre, sem destino, mas com uma missão: a de não desaprender a voar nunca.
        Eu amo demais a vida, e é por isso que a odeio: meu amor é muito grande, nele tudo cabe. Preciso sofrer obstinadamente pra não esquecer que existo com tanta frequência (pra não esquecer com frequência; pra não existir com frequência). Eu choro quando quero e quando não quero, porque sempre há motivo pra chorar. O brilho dos meus olhos ganha forma e gosto quando vira lágrima. Preciso me derramar. Preciso emagrecer minha dor pelos olhos, pelo suor dos meus olhos, preciso lavá-los para que fiquem novos.
        Eu sou mais. Eu sou muito mais do que o que essa vida estranha me proporciona. Minha intuição (que, na verdade, não é minha, mas do mundo) me diz coisas muito bonitas pra que eu as ignore. Minha intuição sou eu, e eu não posso me ignorar, senão não existo. E, se não existo, eu sou vazio; um vazio que me engole e me cria, de novo. Eu sou um buraco sem fim; uma gema no ovo, e tudo que me cerca é branco. Sou um ovo estrelado. Um ovo cheio de céu e de brilho nos olhos: essa é a minha composição do ser humano - muitíssimo incoerente, mas minha (e não do mundo), mesmo que eu seja dele. E mesmo que eu não exista.

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