terça-feira, 16 de abril de 2013

Do que não sou

Amanhece
Eu acendo a luz como se fosse noite
E lá fora estivesse escuro
Mas faz sol, e o céu está azul bebê
Acabou de nascer com nuvens de algodão
E esquinas perigosas
Sempre perigosas, não importa a hora
Almas ruins adormecem e acordam
Sem paralelismo
(às vezes, a casa é mais perigosa
do que a rua)
Eu sou um exemplo vivo
E deveria estar dormindo
Ter lido mais cedo
Ter seguido horários
Ou, do contrário,
Ter feito o que quero
Fiquei no meio, porém, e me fiz refém
Do meu próprio mistério:
Por que duas horas sentada me são tão difíceis?
Até as paredes brancas chamam mais atenção
Que qualquer coisa que mereça minha atenção
Agora, os pássaros piam imitando corvos
E gritam que nunca mais
Nunca mais vou me ajeitar
E vou sempre escrever antes de dormir
E dormir na hora de acordar
E endoidar antes de tudo
Mas, depois, voltar a ser normal
A pena é que descobri
Que gente normal não ouve pássaros
Como se fossem corvos
Nem mesmo ouve pássaros que piam
Porque dorme
Porque segue rotinas e sabe a data de hoje
Porque guarda papéis em pastas e um toque do alarme basta
E não se atrasa nunca
Gente normal vê o pôr do sol na praia
Toma água de coco porque faz bem
E tem uma bela caligrafia
Mas eu, infelizmente, escrevo muito feio
E com muita força
E marco a outra página com minhas linhas
E, sinceramente, não devo poder ser normal
Gente normal não ouve um corvo
Que imita Pardal
É uma pena
Porque eu adoraria, pelo menos por um dia,
Não ter distonia, não escrever na cabeça
Ser disciplinada
Por isso, o corvo errou:
Eu não volto a ser o que nunca fui
E, na verdade,
Eu me recuso prontamente
A ser normal
Dormir cedo é impossível
E eu prefiro olhar o meu pé rosinha
Pela luz do sol que entra
Pela janela
Quando eu deveria estar dormindo.

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