segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O besouro e eu


Eu escrevia e, em meio aos inúmeros sintomas de déficit de atenção (o qual eu mesma diagnostiquei), olhei para o teto: lá estava o besouro preto. Eu já havia ouvido um zunido e, como bem ouço os besouros, imaginei que um deles comigo dividisse o quarto. Se, por um lado, eu não estava mais sozinha, por outro, eu preferiria estar. Fugindo totalmente da bondade, humanamente assumo meu ódio por besouros e minha frescura com bichos feios. No entanto, fui boazinha e não peguei o inseticida - repetindo a solidariedade do réveillon, quando evitei a morte de uma formiga pelo meu próprio pé, já que ninguém merece morrer no ano novo. Desta vez, no entanto, minha bondade não tinha motivo, eu só não quis matar o bicho. Fiquei calma e quieta, no mesmo lugar, enrolada no lençol rosa, de pernas cruzadas, prosseguindo com meu escrito. O problema, agora, não era mais o medo de que o bicho pousasse em mim - e tirasse do bolso uma faca para me ameaçar de morte -, e sim meus olhos, que, com tanta coisa para olhar, fixavam-se no novo companheiro de quarto. Devido às inúmeras dificuldades, de lá saí e fui à sala, onde me encontro no momento. Após escrever por certo tempo, voltei ao quarto para pegar umas coisas: só então percebi o quanto meu déficit evoluiu. À minha frente, encontrava-se, há horas, uma bandeja com um copo de leite morno, do qual esqueci a obrigação de tomar uma vez a cada vez que eu quiser. Xinguei esta que escreve de burra e sentei novamente na cama. Dando toda a atenção ao copo de leite, esqueci de olhar se o bicho estava no mesmo lugar, mas não esqueci de sua existência. Pensei, então, na possibilidade de ele ter entrado no copo e roubado gotículas do meu leite, nele se afogando. Não senti pena nenhuma, não, só fiquei preocupada e com medo de tomar leite com besouro. Resolvi checar e olhei para cima: ele ainda estava lá, no mesmo lugar, assim como o copo de leite. Ninguém se mexeu em minha ausência, eu não fiz a menor falta, as coisas prosseguiram igualmente, com ou sem mim. É aí que eu me pergunto: por que, com tantos copos de leite abandonados pelo mundo, o besouro entraria logo no meu? Por que, com tantos apartamentos para entrar, ele enfiou-se justamente no meu? Por que, com tantos cômodos para conhecer (ou nem tantos assim), ele escolheria bem o que eu me encontrava? Será que ele se sente sozinho, o besouro? E se eu o matasse, seria justo? E se fosse justo, quem julgaria? E se eu bebesse o copo de leite, eu estaria pensando em tudo que penso agora? E se eu fosse surda e nem ouvisse o zunido do besouro? E se o besouro não pousasse em meu teto, eu ainda estaria escrevendo? E se eu gostasse mesmo de besouros? E se eu odiasse leite? E se o besouro pudesse falar, será que me confirmaria todas as hipóteses? Não sei. Por coisas como essa, chego a pensar que destino, carma e quiromancia fazem mesmo sentido; que o besouro deveria, sim, pousar em meu teto, me fazer esquecer do leite, mudar de cômodo, voltar, sair novamente, escrever sobre tudo e pensar que destino existe. Talvez o besouro não sirva para nada, pousou em qualquer lugar, me incomodou, e eu, que acho motivo em tudo, vi chifre em cabeça de escaravelho. Vai saber... só sei que acho a individualidade importante e, por isso, novamente me encontro na sala, enquanto ele aproveita o teto do meu quarto. Não matei o bicho.