segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A vida difícil da vida


"Estranha": era assim que vida se descrevia, no perfil do Feicibuqui - mais estranhos ainda eram os fatos de ela ter conta num site de relacionamentos e de ser amiga da morte. Na foto do perfil, uma cegonha. Pai: deus, zeus, Henri Nestlé - três contas pro divino espírito santo. Cutucadas: inúmeras, e uma sensação de vazio maior ainda, mais inefável ainda. Data de nascimento: o que colocar? Como poderia vida nascer? Ela é; sempre foi; sempre será. Perene. Eterna. E a idade? Que idade teria? Melhor resumir tudo em alt + 236. Como se não bastasse toda a confusão no preenchimento dos dados, vida ainda precisava se preocupar com arte, uma stalker safada que a imitava, o tempo inteiro, e nem função prática tinha! O que a cansava, também, era a mania afetada, que as pessoas tinham, de classificar a pobre coitada: "irônica", "curta", "bela", "feita de escolhas"... argh! Quem elas pensavam ser para afirmar alguma coisa? Por quê? Por quê? Por quê? Vai saber... o fato é que nada poderia ser feito. Quer dizer, quando se amolava demais, vida chamava sua amiga - a de capuz preto -, e puff!: foice a raiva. As coisas só ficaram complicadas quando inventaram um tal jogo de xadrez: sua companheira foi enganada por um sétimo selo maldito. Então, de fato, mais nada poderia ser feito. Pra quebrar a monotonia, vida inventou de namorar o Vinicius de Moraes, substituiu "estranha" por "a arte do encontro" e foi feliz - até que a morte-fura-olho roubou seu amante... e lá foi ela, de novo, botar "estranha" no Feici. Arrependido, após ter feito o mau negócio, Vinicius tentou voltar, mas com vida não tem jeito: ela é difícil, só bons amantes ganham reencarnação. Depois de tantas vicissitudes, raros eram os momentos jubilosos que ela passava - uma das únicas sensações boas era sentir-se um presente e ver que alguns ainda queriam ganhá-la... chega dava um otimismo manso, calminho, e as coisas pareciam valer a pena. Ainda assim, era tudo estranho demais. Demais. Demais.