terça-feira, 14 de agosto de 2012

Rito de retorno que reflete rota


Olha a minha cara, vai, olha a minha cara e diz se nela não falta a tua. Olha o meu perfil e diz se nele não falta o pleno encaixe do teu. Tu diz não, não falta nada, pois aqui estou. E eu digo que tu não está, não, mas no perfil duro e curvilíneo de outra qualquer que não eu. De outra qualquer, com quem não há encaixe querençoso, só lascivo, como tudo que escapa da tua reta, como tudo que é teu. Eu, na sanha, meto a testa no espelho, pra ver se as duas mesmas faces se completam milimetricamente, n'áurea davinciana, buscando beleza, amor, paz, prosperidade, imunidade e um pouco de sorte no jogo do bicho, mas nem: o reflexo se estilhaça, repete as cenas, aponta pro norte, pro sul e pro quinto dos infernos. Vou pro quarto, rezo um terço e esqueço que hoje é segunda, e deus acorda tarde, porque domingo foi pé de cachimbo, que soltou muita fumaça e atrapalhou tudo no paraíso, inclusive o fuso horário. Continuo indecisa entre todos os lados, multiplicada por mim, dividida nas artérias que seguem os rumos das tuas, que sobre outro tronco batem, que por outra boca se agitam. Essa mesma, por ti tão mordida, gruda na tua e passa a imitar teu molde. Já a minha, pouco a pouco, esquece dos teus caminhos, das tuas rotas, das tuas trilhas, das tuas plantações, crescentes no barro outro. A seiva de minha terra passa a ser só minha, não mais se mistura com a tua, mas não posterga o teu gosto, e é bem isso que dói, que apodrece as frutas. Que coisa triste, se pensarmos, infeliz mar dividido por precipício, que, repentinamente, aparece em meio às ondas; casca de ferida retirada; fatia de bolo cortada; água aparada da chuva; não tem volta, devolução, retorno ao tempo. Assim somos nós: rompidos, fragmentados como o reflexo do meu rosto no ver-se quebrado. São sete anos de azar, apenas, e um dia de amor - mas não crie medo: sei que tu prossegue o mesmo e que tu em mim confia, coitado. Quando tu adormecer, giro a chave na tua porta e por ela entro; depois, vou ao teu quarto, entroncho prego da parede, saio de grossinho, e tu nem dá conta de mim. No pino, teu olho vai abrir, enxergar a própria face, como Narciso na água do nosso mar repartido, e, em seguida, o dele dono vai ajeitar a moldura da cara. Aí, teu espelho vai cair, e tu ter sete vezes azar, comigo: a qualquer embora irá, resultado do feitiço bem feito, e eu voltarei, de mala e cuia, pra nossos banhos na falta de água, na falésia deserta. Tu vai ter contentamento, e eu vou virar miragem, paisagem bonita do Egito, tua Cleópatra e, concomitantemente, tua peçonhenta cobra, que tira a vida do teu coração, se por outra ele bater; se teu olho olhar proutro, que não eu, que não tu. Nota como sou una? Sou teu berço antigo, teu azar, tua sorte e tua sina. Sou tu, quase, e me amo enormemente.