terça-feira, 19 de junho de 2012

Vermelhas dores do sentir estranho


Assustam-me os teus cabelos assanhados quando acordas: e quem disse que eu ligo? Adoro susto, adoro medo, adoro o pavor que me causas estranhamente branca, com essa boca pálida, cara de gente doente, camisola folgada, levantando amarela, sei lá, só sei que me assustas toda. Caminhando devagar pelo piso frio, da casa fria, derramando por aí teu gelo, vejo que teu pé, grande e desproporcional, é torto e vira sempre para o lado mesmo... aí, eu sou obrigada a parar, obrigada, quase como quando a gente agradece um presente que odeia; é lei, eu paro pra tu e reverencio. Deitada, olhas com sorriso-deboche, zombeteiro, icônico até, cena de filme, com as tarjas, os desígnios etc e tal e tal e tal. Eu conto teu piscar, é a mim que cabe o cálculo das porcelanas pras paredes do lar nosso: se vou contigo construir dinastia, pendurar uns bichos na parede, botar uns tapetes grossos importados, elefantes com a bunda virada pra porta, perfumes paraguaios na prateleira, ter glamour disfarçado, nosso cheiro de nº5 falsificado, decoração almodovariana, coloridinha, da cor do sangue que em mim pulsa e que em ti bate quando me corto, preciso, então, gretar os pulsos em arterial splatter, pintar uns quadros pra botar nas quadrelas, emoldurar couro velho, roubar joias, criar sinais que só a gente entenda, uma bolha, mesmo. Não vai ser fácil, não, gastar o bago à toa, pra depois quebrares tudo em acesso embargado malquerente, tinir as taças, em um minuto destruir a empola lacrimal e construir outra - que se assola, sem que agulha alguma exploda, suicida de gênese, e viciar a simetria, a minha e a tua, num triângulo imperfeito e réprobo: eu e as duas de tu. Assim, caímos na voragem, porém juntas, emparelhadas como dominós, e incineramos: amor maldito o nosso.