quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma carta que é resposta.

Tu sabes que me empolgo com tudo que envolve o blábláblá, então, respondo teu medo pelo mesmo meio que me enviaste; na minha mania de método, vou te transformar em tópicos.
1) Nenhum texto sincero é ridículo - nenhum. Álvaro de Campos estava certo quando disse que "todas as cartas de amor são ridículas", mas esqueceu de acrescentar uma coisa: é assim para quem as escreve. Sim, constantemente me sinto patética ao escrever, olho, como em corpo estranho, as palavras que jogo e ruborizo inteira. Sabe por quê? Por facilidade. Eu tenho a antiga defesa de presumir resultados para que doam menos... então, melhor prever um leitor chato e insensível, que me reprove - ignorando a contradição que seria caso meu texto se dirigisse a um desses (que não o mereceria, obviamente). O que eu escrevo é alma (minha) em forma de signos e, reitero, sentimento nenhum é instrumento de riso: burlesco é não sentir nada. Já quando as palavras se dirigem a mim, eu me derreto toda, mesmo que não recíproco.
2) Ter dinheiro, casa, comida, emprego, instrução, aliança, gato e cachorro não necessariamente te traz felicidade, nem possui obrigação de trazer. Há o trajeto mais comum da vida, a grosso modo: nascer, falar, andar, estudar, trabalhar, casar, ter filho e morrer; mas viver vai muito além disso, muito, muito, muito além, mesmo. Tem gente que não casa, tem gente que não fala, tem gente que não anda, tem gente que nem é gente - não eclodiu como humano -, e tem gente que é imortal. É muita ironia e beleza para se resumir à beatitude que, por convenção, deve surgir quando se segue o curso comum. Os indivíduos, dos ricos aos pobres, sofrem, sim. E acho que, entre a maioria deles, há competitividade para ser o maior sofredor e vítima da vida, pela brandura que existe em ser figurante, não protagonista (eu simplesmente odeio essas metáforas augusto curyanas, mas c'est la vie); um ser quase nunca vê no outro dor tamanha como a sua, portanto, "amargura alheia é bobagem" - em outras palavras, como diria minha ancestral desbocada, "pimenta no cê-ú dos outros é refresco". Então, se sabes do quanto dói (porque a alma, o corpo e a cabeça são teus, não da puta que pariu), "aperte o P" para os que, notavelmente, fingem entender tua aflição. Nós duas temos o ótimo e péssimo hábito da sinceridade, nem preciso te indicar tudo isso.
3) Tu sabes que, para mim, o melhor caminho é o diálogo (como boa não-terapeuta-metida-a-equilibrada), em toda e qualquer situação. Se não agora, depois. E nunca no calor da emoção - que não gera conversa, mas luta de boxe. Se essa medida não adiantar, considero melhor o afastamento. Ah, e que não sintas culpa ou coisa qualquer parecida: errado é quem mente, não quem se engana.
4) Pode parecer muito inocente afirmar, mas: amor acontece, mesmo que demore. Não adiantaria muito falar, acho que tu já constatas o fato no dia-a-dia, creio que isso tenha sido exposto por desabafo.
5) Não sei se ajudei em coisa alguma, mas posso desejar, com toda vontade desse mundo-doido, que escrevas mais vezes, pois fica bonito - por ser franco - e te faz perder bons quilinhos de tristeza.
E me mandas sempre que quiseres.
Eu estou contigo, tu sabes, desde que nasci - e me derrubaste da cama - até que a vida finde.

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