sexta-feira, 23 de março de 2012

Castigo



Eu tinha os olhos brancos
da cor da minha pele
vazios e branquinhos
até que alguém
muito malvado ou muito santo:
ainda não decidi
enquanto eu distraída
meteu nas minhas frestas duas uvas

as uvas tais
grandes e pretas
banharam-se no álcool do sangue
para que cada choro as esprema
e eu me derrame em vinho

até que mandam engolir as lágrimas
e bêbada eu fico
e jogo fora as coisas empoeiradas
onde bem cabem
só porque alguém
muito malvado ou muito santo
me deu visão:
para que eu te veja mais humano
mais próximo de mim
mais feito de pele, de osso
mais gente, mais falho
mais doido, desequilibrado

até quando perto
por coisa que existe
que esmurra por dentro
as uvas grandonas
olham demais demais demais
e tanto ver me deixa míope
e mister é o óculos
só porque alguém
muito malvado ou muito santo
me castigou:
ser eu, mesmo que não
queira
precise
aguente
mesmo que...
ou engulo seco
seguida por cegueira:
ou por não aguentar vista
ou por castigar exagero

até, enfim, restar-me virar ciclo:
as uvas olham fixo
só mesmo jorram vinho
e eu me transbordo em dor.

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