domingo, 11 de setembro de 2011

Jailson e Raquel.

O Jaílson era até bonito, alto, tinha barriga saliente, usava camisa pólo. Às vezes mocassim. Desenhava, andava meio estranho. Tinha alma de carioca, parecia carregar pandeiro nas mãos, que ocupava com um cigarro ou uma câmera fotográfica. O Jailson não era culto. Ele sabia uma palavra difícil ou outra, como "truculência", que nem era difícil de verdade. Também não era pseudo culto, do tipo que quer ser inteligente, mas não sabe metade de nada. Seu apelido era Jaja. Meio preguiçoso. Desistia de comer para não lavar os pratos. Desistia de sair para não escolher a roupa. Jaja conheceu Raquel e casou-se. Raquel era decidida, usava roupas pretas, scarpin. Gostava de chapéus, mas não sempre. Era muito organizada, tinha postura ereta - problemas na coluna, ela não teria. Um dia, Raquel decidiu não falar. Só ali, naquele dia. Mas como era difícil... Jailson queria seu casaco azul, Raquel não podia falar em qual das seis gavetas estava. Jailson irritou, irritou, irritou. Quebrou uma cadeira, dois pratos e gritou. Raquel, calada. Guardou todas as suas palavras, por baixo dos seus dentes redondos e brancos. Jailson disse que era homem verdadeiro e não precisava dessas coisas de guardar sílaba, não. Tão verdadeiro, que cobria a cicatriz da perna com uma meia. Foi ler a Bíblia, para se acalmar. Abriu em qualquer página, lembrou de Adão e Eva, das folhas em suas partes íntimas, cobrindo o que há de mais natural no homem. Natureza cobrindo natureza. O dia terminou. Pobre Jailson... Raquel guardou toda sua raiva para amanhã. Pegou a cabeça dele e empurrou contra o criado-mudo, caindo sem querer em cima do planeta Terra de mentira, que eles tinham. Por um momento, Jailson viu a fome na África, o casamento forçado da Índia, o suicídio da Suíça, a cerveja da Alemanha. Raquel gritava por uma vida inteira, com raiva guardada de um dia. Jaja, de repente, sorria. Enquanto o planeta se despedaçava, Jaja sorria e não ligava mais pra nada. Morreu pelo mundo, e ficou pra depois.

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