sábado, 4 de junho de 2011

Mas.

- Sabe, amor, começarei assim.
- Como?
- Assim, desse jeito que já começamos.
- Casal da rua ao lado já está todo feliz.
- Casal da rua ao lado já está, em todo.
- Tum tum tum, estão batendo à porta, coração bate junto, a campainha toca, beijo, abraço, dou tapinha nas costas, em tua roupa me amasso, dou um laço e vou embora.
- Mas eu queria tudo junto, como "havia dito que iria te dizer".
- Entre no clima, querido. Não substitua a fumaça do café com o teu gelo seco. De quente pra frio, de baixo pra alto, de gordo pra magro, você é insubstituível, como o espaçoentreaspalavras.
- Mas deixa as ondas seguirem, o sol chegar, a lua voltar, a luz entrar, deixa.
- Eu não sei deixar. Eu não sei esperar. Eu quereria poder mover tudo a meu favor.
 - Mas a gente não é herói.
- Herói não precisa mover tudo, herói só precisa voar. E, voar, eu vôo. Mas eu escolhi a música errada, as teclas erradas, as notas erradas. E a única nota que sobrou foi zero.
- Não seja tão pessimista. Entre oito e oitenta, eu fico com a metade.
- Mas eu não. Mas, mas, mas. Tanto "mas", que tenho sono e durmo. E, quando acordo, já é outro lugar, outro dia, outra hora, outra de mim.
- Dormes ou acordas?
- Durmo. Mas, agora, estou acordada. Mas meus olhos abrem e fecham, durmo e acordo. Espelho não me mostra: espelho mostra a mim. E eu giro no espelho, e o verso não pode ver a frente, o verso não pode ver inverso, o verso não pode ver in. Verso só toca, toca, toca, e me dá notinhas erradas. Inhas, sim. Por isso, erradas.
- Você está vestida de drama, joga essa roupa fora. Joga fora, que ela não veste ninguém, que é vermelha demais, é fogo-amarelo-e-todo-cheio-de-cores. Drama é México, querida.
- Mas a gente deve entender quando escolhemos parar e atender outra ligação.
- Sim, devemos.
- Sim, podemos.
- Sim, não entendemos. Sim, amamos. Sim, corremos.
- Sim, sim. Eu aceito. Eu aceito que devemos, amamos, corremos. Eu te aceito, meu bem, por inteiro. Mas só por inteiro.

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