domingo, 15 de maio de 2011

Cheio.

- Onde é que eu vou buscar realidade? Parece que ela me foge.
- Não foge, não. Você é que foge dela.
- Eu detesto quando você afirma sobre mim. Eu não me sei, imagine você.
- É que eu te vejo por fora.
- E eu me vejo por dentro. Não dá pra dizer se o balde tem água, se a gente não olhar pra dentro. Só se for transparente. E, bem, eu não sou. Sou complicada, sou muito inside.
- E do que é que o balde tá cheio?
- Não sei. Ainda não olhei para dentro, hoje. Isso é: se ele estiver cheio.
- Você muda todos os dias?
- Sim, mudo. Quase sempre.
- Como?
- Às vezes, esvazio o balde. Às vezes, deixo como está. Posso misturar tudo, também.
- Não há nenhum balde. Há você e eu.
- Dois baldes, então.
- A gente é mesmo coisa muito frágil.
- É, frágil que nem bailarina de caixinha de música. Você me abre, e eu não paro de tocar. E giro, e danço, até que me feche. Mas bailarina tem vontade própria, e eu nem sei dançar. Às vezes, a música pára. E bailarina deixa de sentir, e fica parada, nem dança mais.
- Bailarina, mesmo, nem precisa de música.
- E eu nem sei dançar.
- Bailarina, mesmo, nem precisa dançar.
- E eu nem fiz balé.
- Bailarina, mesmo, nem precisa de balé. Bailarina fica na ponta dos pés. Então, sonha. E não volta mais. Se você quiser música, eu dou. Se você quiser dançar, eu danço. Se você quiser balé, te ensino, apesar de nem saber. Mas os pés são teus. Dorme na música, deixa sentir, por um momento, teus pés voando. Enche teu balde de sonhos, menina. E não volta mais.

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