sábado, 12 de fevereiro de 2011

Blá Blá Blue.

- Ah, o cheiro lilás daquela época, e teus olhos eram azuis. - Falou olhando pra cima, quando o sol deixava os seus da mesma cor. - Eram não.
- Claro que eram.
- Sim, eram, mas continuam sendo.
- E tua alma era branca.
- Era?
- Era.
- E agora?
- Não sei. Prefiro acreditar que ainda seja branca, da cor da tua pele.
- Você mudou.
- Todo mundo muda. Você mudou?
- O que acha? Todo dia é dia de mudar, e a gente muda nem que seja um centímetro. O vento faz a gente mudar, o ar, esse espaço que há entre dois telefones, duas portas, dois olhos, dois sentimentos...
- Você ficou mais brega.
- E você mais sensível.
- E você mais irônico.
- E nós dois mais eu.
- Talvez. Como se a gente tivesse tido tempo pra pensar alguma coisa diferente de "morangos ingênuos".
- Você anda bebendo, não é? Tá toda alienada, esses teus olhos não me enganam.
- Meus olhos não enganam ninguém, sóbrios ou não. São seus olhos, meu bem.
- Cadê aquele teu livro rosa?
- Deve estar na estante, embaixo do livro azul, do lado do amarelo. A página que tu deixou tá marcada.
- Você não o abriu mais?
- Abri sim. Abro todo dia, pra lembrar de continuar fechando meu coração.
- E você mais dramática.
- Só às vezes. Raramente, na verdade. Em geral, eu continuo a mesma, mudando de direção, de pensamento, de blá blá blá.
- E se eu te disser que não sei como terminar? E que quando a gente não sabe, fica enrolando pra não ver o que tá na cara. Enrolando pra não terminar e começar tudo de novo, mais aliteração, mais pensamento, mais criatividade, mais falta dela, mais, mais e mais. Eu queria menos.
- Você faria tudo de novo?
- Faria tudo de velho. - Sorriu.
- Você lembra do cheiro? Eu lembro.
- Não é lembrar, é que de repente vem. E vai. E volta. E eu volto pra onde parei, sempre estive lá, ainda estou lá, parada, olhando pra as árvores, contando pra você chegar, numa mistura de medo, ansiedade, inconsequência, diversão, tanto pela frente. Era ótimo ser inconsequente. Sempre tive sorte. Vou continuar contando pra você chegar, que a gente muda, mas nada muda a gente.
- Tá bebendo, eu sabia.
- Eu não sei. Vou agora, que tenho que ir, que o que eu tinha pra dizer, já disse. Gosto de conversar com você, mas a fonte não tem mais água, evaporou. Lembra de mim, que dos teus olhos azuis, eu não esqueço.

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