terça-feira, 28 de setembro de 2010

Que seja.

Você não sabe o que é pior: sentir-se mal ou não sentir. Talvez seja pior sofrer dos dois. Sinto-me mal, mas não consigo sentir. Algo em mim parece que explode e, simultaneamente, se fecha, porque algo diz "fique calmo que tudo sana", enquanto, profundamente, sei que tenho um vazio que me entristece, deixa tudo escuro e tem consciência de que, mais profundamente ainda, as coisas são podres. Podres como pão fora da geladeira por uma semana. Podre como o egoísmo que reprovo e possuo. Podre como a falsidade dos sorrisos e o desespero no olhar. Eu olho ao redor, e só vejo cobertas. Tristezas cobertas, sentimentos escondidos, pessoas ocultas. E todos se doem tanto, tanto. É estranho viver, observar tantos rostos diariamente e não imaginar que, por trás deles, há traumas, medos e um grito silencioso. Um grito que quase ninguém ouve. Não se usa a voz, não se sabe usá-la: só quem sentir o não-sentir entende. Se olhares bem, perceberás que, no olhar que olhas, há um pedido de socorro. Há uma esperança sofrida e exagerada que implora por identificação, paciência. E ninguém para e se pergunta, inclusive eu. Elogiamos e lutamos tanto pela verdade, mas temos medo da nossa. Sim, dói. Dói você, não em você. E ocorrem arrepios, pena, tudo que é seu em você se mostra, e dói. Só sinto uma dor, uma certa dor, e tudo se resume a isso. Eu jogo essa esperança, de não ser a única, no mais próximo, no que recorda. Quando estou triste - o que, infeliz e felizmente, não é raro - sei que é um aviso: algo está errado dentro. Algo deve ser resolvido. Mas não sinto, não me permito, fecho-me, recluo-me, fujo de mim. É como se eu os soubesse. Era como se me tivesse, me vivesse, mas não me fosse. Não sei o que digo, estou no mais íntimo de mim, então não me reconheço. Vivo pela beira, jogando as cartas em jogos perigosos, afinal, eu vivo. Estranho-me em demasia. Sou tão cheia de vida, mas uso-a tão pouco. Sou só e sempre serei. Pelo menos só eu tenho medo de mim. Fizemos um pacto: ele se multiplicaria para que me fosse mais fácil achá-lo. E assim, me perder. Como um coração listrado, eu sou dividida: uma parte em mim e as outras em mim. Que seja, deixa ser. Mas, sinto-me como Clarice Lispector um dia se sentiu: "eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada".

Um comentário:

  1. Concordo plenamente quando diz que todos possuem uma dor mas tem medo de admitir que a sente. E que precisa resolver isso. Simplesmente tem-se medo do que possa vir a acontecer se admitirmos a existencia de tal dor. Talvez por causa do círculo em que se vive, ou talvez, pela reação que as próprias teriam ao encarar o fato.

    ResponderExcluir